Como a indústria automobilística criminalizou os pedestres que atravessam fora da faixa

  • Rafael Darrouy
  • 02/fev/2015
  • 15 Comentários

Muitos podem não saber, mas a indústria automobilística atua nos bastidores do poder e da mídia para impor costumes e leis que beneficiam seu produto. Foi assim que ela acabou com os bondes elétricos que faziam o transporte público de diversas cidades ao comprar as empresas e sucatea-las, introduzindo os ônibus barulhentos, desconfortáveis e poluidores. Tudo para vender automóveis aos, outrora, felizes passageiros do transporte público.

Também, foi assim que as ruas passaram a ser de uso exclusivo dos veículos motorizados, expulsando os pedestres, as crianças e o comércio para as calçadas. O texto abaixo, publicado originalmente no portal estadunidense VOX e traduzido por nós do site O Ciclista Capixaba explica bem como, na década de 1920, os pedestres foram proibidos de atravessar as ruas.


Há 100 anos, se você fosse um pedestre, atravessar a rua era simples: bastava cruzá-la em qualquer ponto.

Hoje, se há tráfego na área e você pretende seguir a lei, é necessário encontrar uma faixa de pedestres. E se há um semáforo, você precisa esperar ele fechar para os automóveis.

Deixe de fazê-lo, e você estará cometendo uma infração de trânsito. Em algumas cidades – Los Angeles, por exemplo – dezenas de milhares de multas são aplicadas a pedestres que atravessam fora da faixa.

Para a maioria das pessoas, isso parece parte da natureza básica das ruas. Mas na verdade é o resultado de uma agressiva campanha liderada pela indústria automobilística que redefiniram os donos das ruas das cidades nos anos 1920.

“Nos primeiros dias do automóvel, era trabalho dos motoristas evitar os pedestres, e não o contrário”, diz Peter Norton, historiador da Universidade de Virginia e autor de Fighting Traffic: The Dawn of the Motor Age in the American City.
“Mas sob o novo modelo, as ruas se tornaram um lugar para carros – e como um pedestre, a culpa é sua, caso seja atropelado”.

Uma das chaves para essa mudança foi a criação do crime de “jaywalking” (atravessar a rua fora da faixa). Aqui está uma história de como isso aconteceu.

Quando ruas da cidade eram um espaço público

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É difícil de imaginar, mas antes da década de 1920, as ruas das cidades eram muito diferentes do que são hoje. Elas eram consideradas espaços públicos: um lugar para os pedestres, vendedores de carrocinha, veículos puxados por cavalos, bondes e crianças a brincar.

“Os pedestres andavam nas ruas em qualquer lugar que quisessem, quando quisessem, geralmente sem olhar”, diz Norton. Durante a década de 1910, havia poucas faixas de pedestres pintadas na rua, e elas geralmente eram ignoradas.

Quando os carros começaram a se espalhar amplamente durante os anos 1920, a consequência disso era previsível: a morte. Durante as primeiras décadas do século, o número de pessoas mortas por carros disparou.

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Os mortos eram, principalmente, os pedestres – não motoristas – e majoritariamente idosos e crianças, que antes tinham as ruas livres para passear e brincar.

A resposta do público a essas mortes foi, é claro, negativa. Veículos eram muitas vezes vistos como brinquedos, semelhante à maneira como pensamos em iates hoje (muitas vezes eles foram chamados de “carros de prazer”). E nas ruas, eles foram considerados intrusos violentos.

Cidades ergueram monumentos para as crianças mortas em acidentes de trânsito e jornais cobriram as mortes no trânsito em detalhes, geralmente culpando os motoristas. Cartunistas demonizavam os carros, muitas vezes associando-os com “a morte”.

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Antes das leis formais de tráfego serem colocadas em prática, os juízes normalmente decidiam que em qualquer colisão, o veículo maior – ou seja, o carro – era o culpado. Motoristas foram acusados de homicídio culposo, independentemente das circunstâncias do acidente.

Como os carros tomaram as ruas

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Com o elevado número de mortes, ativistas anticarro se mobilizaram para diminuir a velocidade dos automóveis. Em 1920, a Illustrated World publicou: “todos os carros deveriam ser equipados com um dispositivo que limitaria a velocidade de acordo com as regras da cidade onde o proprietário vive.”

A virada veio em 1923, diz Norton, quando 42.000 residentes de Cincinnati assinaram uma petição que exigia que todos os carros tivessem um dispositivo que limitasse-os a 25 km por hora. As concessionárias locais ficaram aterrorizadas e entraram em ação, enviaram cartas para cada proprietário de carro na cidade para que votassem contra a medida.

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A medida falhou. Alertando grupos automobilísticos por todo o país para o risco de diminuição do potencial de vendas de automóveis.

Em resposta, as montadoras, distribuidores e grupos de entusiastas trabalharam para redefinir legalmente a rua – para que os pedestres, em vez dos carros, tivessem a circulação restringida.

A ideia de que os pedestres não deveriam ser autorizados a caminhar por onde quisessem já havia sido pensada em 1912, quando a cidade de Kansas publicou a primeira portaria obrigando-os a atravessar ruas na faixa de pedestres. Mas, foi em meados dos anos vinte, que a indústria automobilística assumiu a campanha com vigor, conseguindo a aprovação das mesmas leis por outras cidades do país.

As montadoras assumiram o controle de uma série de reuniões convocadas por Herbert Hoover (então secretário de Comércio) para criar uma lei de trânsito modelo que poderia ser usada por várias cidades do país. Devido à sua influência, o produto dessas reuniões – Modelo municipal de trânsito de 1928 – foi amplamente baseado nas leis de trânsito de Los Angeles, que havia decretado rígidos controles para pedestres em 1925.

“O mais importante sobre este modelo, foi dizer os pedestres cruzariam apenas em faixas de pedestres, e apenas em ângulos retos”, diz Norton. “Essencialmente, esta é a lei de trânsito que ainda estamos vivendo hoje.” 

A vergonha do “Jaywalking” (atravessar a rua em qualquer lugar)

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Mesmo após a aprovação dessas leis, os grupos da indústria automóvel ainda enfrentavam um problema: na cidade de Kansas e em outros lugares, ninguém estava seguindo as regras. As leis raramente eram aplicadas pela polícia ou juízes. Para resolver esta questão, a indústria assumiu várias estratégias.

Uma delas foi a tentativa de moldar a cobertura de notícias de acidentes de carro. A Câmara Nacional de Comércio de Automóvel, um grupo da indústria, criou uma agência de notícias livre para os jornais: repórteres poderiam enviar os detalhes básicos de um acidente de trânsito, e obteriam em troca um artigo completo para imprimir no dia seguinte. Estes artigos, impressos amplamente, colocavam a culpa pelos acidentes nos pedestres – sinalizando que seguir as novas leis era importante.

Da mesma forma, a Associação Americana de Automóveis (AAA) começou a patrocinar campanhas de segurança escolar e concursos de cartazes, criados em torno da importância de ficar fora das ruas. Algumas das campanhas também ridicularizavam crianças que não seguiam as regras. Em 1925, por exemplo, centenas de crianças em idade escolar de Detroit assistiram o “julgamento” de uma criança de doze anos de idade, que tinha atravessado a rua sem segurança, e foi condenada a limpar quadros-negros por uma semana.

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“Auto ativistas” pressionaram a polícia a fazer com que os transgressores fossem ridicularizados através de assobios e gritos – e até mesmo levando as mulheres de volta para a calçada – em vez de calmamente repreender ou multar. Eles realizaram campanhas de segurança no qual atores vestidos com trajes do século 19, ou como palhaços, foram contratados para atravessar a rua de forma ilegal, o que significa que a prática estava ultrapassado e era tola. Em uma campanha realizada em 1924 em Nova Iorque, um palhaço marchou na frente de um Modelo T que o atingia repetidamente.

Esta estratégia também explica o nome que foi dado para o ato de cruzar ilegalmente a rua a pé: “jaywalking”. Naquela época, a palavra “jay” significava algo como “caipira” – uma pessoa que não sabia como se comportar em uma cidade. Assim, os grupos pró-auto promoveram o uso da palavra “jay walker” como alguém que não sabia como andar em uma cidade, ameaçando a segurança pública.

“A campanha foi extremamente bem sucedida”, diz Norton. “Ela mudou totalmente a mensagem sobre para que as ruas servem.” [VOX]

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15 COMENTÁRIOS

  • Vinícius - 3 de fevereiro de 2015 às 02:07

    ótimo texto, bem elucidativo.
    Ridicularizar é mais que um verbo no infinitivo para a indústria. Para ela é uma maneira de sobrepor seus desejos frente aos dos consumidores. Serve como encilhamento cultural, isto é, uma forma de adestrar para que todos aqueles que beiram o comum aceitarem o caminho por eles ditados.
    Não diferente com o ciclista, a indústria automotiva não aceita que seu crescimento seja abafado ou que meios alternativos como as bicicletas e o trem sejam viabilizadas.
    Para que tenham seus desejos impostos, simplesmente se aproximam do governante e dizem ” ou eu com meu ICMS, geração de empregos e meus caminhões assassinos ou esse povinho ai que anda de trem, bike e de moto(pq não?).

  • Guilherme A. - 3 de fevereiro de 2015 às 11:31

    Excelente o que está escrito, mas poderia ter creditado melhor a origem do texto – VOX, no caso, que só aparece como se fosse referência da última citação.

    • Thiago - 4 de fevereiro de 2015 às 22:37

      Já leu o início da matéria?

  • Souza - 5 de fevereiro de 2015 às 12:15

    Ativistas…. Apontar o dedo e culpar alguem… O automóvel teve e ainda tem seu papel. O uso irracional do mesmo e que e o problema. Regras são criadas para se minimizar riscos. Não nego que existam interesses envolvidos em situações especificas mas com o crescimento do automóvel inevitável a necessidade de criar normas de conduta. Elas existem ate mesmo para ciclistas e pedestres em ciclovias…. Por que? Porque hoje temos um crescimento exponencial do uso da bicicleta. Apontar o dedo endemoniando o que foi uma tendencia em determinado período e que regras teriam que ser criadas com ou sem interesses envolvidos não acrescenta. Amanha vamos culpar quem?

    • Claudiobr - 5 de fevereiro de 2015 às 13:11

      Amanhã vamos culpar a prioridade absoluta que os carros tiveram sobre as demais formas de transporte. Hoje temos ruas perigosas para crianças que se tornaram mais perigosas porque os pais dessas crianças as estão levando de carro (acima dos 30 Km/h) justamente porque ali é perigoso. Virou um ciclo vicioso. Paris e Madrid estão gradualmente eliminando carros dos centros. O que falta é lembrar que sim, é possível e muito bom levar uma vida sem carro.

      • souza - 9 de fevereiro de 2015 às 14:11

        melhor re-ler a história.
        As pessoas andavam a pé…
        por necessidade vieram os cavalos e as carruagens
        depois os trens, bicicletas e automóveis.
        as pessoas os compraram pra se aproximarem de outras pessoas, para cobrir longas distâncias em menos tempo.
        e sim… com a popularização vem as regras….
        ou não existe regra para a bicicleta andar nas ciclovias?
        ou não existe proibição do pedestre caminhar na ciclovia?

        tendencias mudam, e fico feliz por elas estarem mudando.
        uso a bicicleta como meio de transporte diariamente… e fico feliz por existirem regras….
        mais feliz ainda em ver que alguns pedestres e motoristas as cumprem…
        mas existem ciclistas que acham que por estarem em cima de uma bicicleta podem tudo….
        e pelo jeito você é um desses….
        ciclistas são santos e motoristas são vilões …
        capitalismo x comunismo
        esquerda x direita
        o bem x o mau
        ….
        temos que ser pragmáticos e justos com todos e com uma época.

        • Felipe - 10 de fevereiro de 2015 às 00:27

          Parabéns, Souza!

          Que comentário lúcido! Parece que todo mundo tenta seguir a cartilha de como ser pró-carro/pró-bicicleta, comunista/capitalista que estão perdendo a capacidade de fazer análises mais profundas e complexas.
          Eu uso, diariamente, a bicicleta para me locomover, entretanto tenho carro e uso em algumas situações. Tenho plena consciência de que ela faz parte da solução para o trânsito das grandes cidades, porém é só uma parte.

  • Alexandre Liodoro - 6 de fevereiro de 2015 às 15:45

    Excelente texto. Muito educativo. interessante como o mundo tem ciclos antagônicos. Hoje em dias várias cidades estão voltando a devolver as ruas aos pedestres e ciclistas. Uma tendência que parece irreversível, mesmo com toda a força da industria automobilistica.

  • bacala - 9 de fevereiro de 2015 às 13:04

    excelente iniciativa!
    a tradução de bons artigos só incrementa a cultura dos ciclistas brasileiros. parabéns!

  • são paulo, a escravidão do automóvel, o deserto das garagens. | vida extinta – vidas em extinção - 9 de fevereiro de 2015 às 22:27

    […] para acreditar que rios encobertos eram melhores. treinaram-lhe para pensar que não se deve andar pelas ruas. treinaram-lhe para acreditar que roupas melhorariam sua aparência. ou até que sua aparência […]

  • amerika, ist wundebar! | as bicicletas - 22 de março de 2015 às 12:07

    […] esse carrocentrismo é uma visão importada dos e.u.a. duvida? leia aqui sobre como as ruas deixaram de ser local det rânsito de pessoas para se tornarem lugar p… […]

  • Valcimar - 23 de março de 2015 às 19:58

    Ler é cultura, somados a essas informações “volta ao tempo” é uma viagem ,a curiosidade de cada vez mais temos que ler e ler faz com que sejamos o futuro com bons exemplos de cidadãos para nossos filhos colocando em prática o que aprendemos em sala ou da capacidade individual que temos e somos por trânsito melhor.

  • “Como a indústria automobilística criminalizou os pedestres que atravessam fora da faixa” | Associação pela Mobilidade a Pé em São Paulo - 5 de maio de 2015 às 12:59

    […] originalmente em: O ciclista capixaba Autor: Rafael Darrouy Data: […]

  • Natália - 9 de setembro de 2015 às 17:09

    Texto muito bem escrito e muito atual. Gostaria de saber se o autor utilizou alguma referência bibliográfica para escreve-lo.

    • Natália - 9 de setembro de 2015 às 19:47

      Prezado, relendo o texto, já obtive minha resposta. Obrigada.

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