Painel de Degustação: 10 facetas inovadoras nos vinhos da Bodegas RE!

  • Luiz Cola
  • 29/mar/2017
  • 1 Comentário

O renomado enólogo chileno Pablo Morandé poderia estar curtindo sua merecida aposentadoria há bastante tempo, mas não se pode querer melhor descanso do que fazer o que mais se gosta. No caso dele, fazer vinhos é mais do que uma paixão, é uma herança familiar!

Descendente de uma família que há nove gerações cultiva vinhas no Chile, “Don” Pablo criou com seus filhos alguns anos atrás a Bodegas RE, um projeto pessoal que busca “REcriar, REinventar e REvelar” os vinhos produzidos em rústicas tinajas de argila por seus ancestrais.

Criar vinhos com a máxima liberdade possível, sem ficar preso às amarras comerciais do mercado. Essa é a filosofia por trás dos vinhos feitos por Pablo Morandé em sua revolucionária Bodegas RE, situada no Vale de Casablanca. Nesse terroir, praticamente descoberto por ele, é feita a REvolução, o REsgate e a REinvenção no modo chileno de fazer vinhos. Um REjuvenescimento muito bem-vindo para o país.

Depois de degustar alguns de seus vinhos, resolvi reunir seus dez principais rótulos, todos de pequena produção, para uma degustação comparativa (e contemplativa) capaz de revelar os segredos e facetas desses vinhos inovadores. Veja a seguir as minhas impressões sobre cada um deles:

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RE Noir Blanc de Noir Nature NV

Esse espumante, um Blanc de Noir (Pinot Noir vinificado em branco), surpreende desde o primeiro gole: refinado, fresco e dotado de grande persistência gustativa. Um rótulo com estirpe para se tornar um clássico num país que não tem grande tradição na produção desse tipo de vinho. Uma REvelação em termos de espumante!

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RE Pinotel 2015

Mais uma vez a Pinot Noir, com um toque de 5% de Moscatel, brilha nesse vinho de estilo meio “laranja”, com um caráter franco e muito fácil de beber. Pensado como um vinho para ser bebido jovem, esse Pinotel explora o frescor e o caráter frutado das castas de maneira muito inteligente, convertendo-se no vinho mais acessível dessa série de rótulos. REfrescante e divertido!

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RE Chardonnoir 2013

Já escrevi detalhadamente sobre esse vinho aqui no blog em outro post cerca de um ano atrás. A safra mudou (ou outro era 2012), mas a qualidade intrínseca do vinho se manteve. Apesar de ser o branco de menor frescor desse primeiro grupo de brancos, ele compensa isso com um conjunto elegante e complexo no paladar. Um branco REfinado e sedutor!

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EnREdo 215

Esse exótico rosé é resultado de uma mescla elaborada com as duas castas mais emblemáticas da Alsácia: Gewurztraminer (70%) e Riesling (30%). Ele impacta os sentidos do degustador do início ao fim, desde seu conjunto de aromas florais e de frutas cristalizadas, até seu paladar cítrico e picante. Um rosé desconcertante e REvigorante, capaz de eriçar nossos sentidos como poucos de seu gênero.

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RE Velado 2012

Se os vinhos anteriores já demonstraram claramente a proposta e a capacidade de Pablo Morandé para criar vinhos inusitados e muito interessantes, no RE Velado ele se superou. Esse vinho (100% Pinot Noir vinificado como um rosé bem claro) possui um estilo propositalmente oxidativo, que se assemelha a alguns brancos do Jura e de Jerez, é fantástico em todos os sentidos. Dominado por aromas amendoados, florais e levemente trufados, ele oferece um paladar muito instigante (que pode causar estranheza para alguns), picante e extremamente persistente na boca. Uma obra-prima para ser degustado em momentos de REflexão!

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Re Doble 2015

A grande curiosidade desse vinho é que as varietais Garnacha e Carignan estão enxertadas em lados distintos de uma mesma vinha velha da casta nativa País, naturalmente imune a praga philloxera, Desse fato incomum, veio a inspiração para batizar o vinho de Doble (duplo, em espanhol). A combinação dessas castas gerou um vinho bastante frutado, com boa acidez e uma certa rusticidade nos taninos que lhe conferem muita personalidade.

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RE Syranoir 2014

Esse vinho apresentou inicialmente um aroma meio estranho de “carne crua”, mas que foi se dissipando com o tempo na taça. Fora essa anomalia, seguiu a mesma linha de frescor e elegância dos vinhos anteriores. REfinamento e sutileza descrevem bem o estilo desse vinho.

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RE Syragnan 2015

Elaborado com vinhas muito velhas (65 anos ou mais) plantadas em secano (sem irrigação) no Vale de Maule, esse vinho é resultado de uma mescla de Syrah (90%) e Carignan (10%). Sua estrutura robusta é centrada numa Syrah que gera frutas negras e concentradas, mas que são “temperadas” na medida certa com a acidez advinda das velhas vinhas de Carignan. Mais completo e complexo que o Syranoir, esse jovem blend demonstrou ótimo potencial de guarda e capacidade de evolução. Será REcompensador bebê-lo novamente daqui uns 10 anos.

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RE Cabergnan 2010

O mais maduro dentre os vinhos degustados nesse grande painel, esse Cabergnan (90% CS de estilo tipicamente chileno e 10% de Carignan) foi uma ótima surpresa. Eu esperava encontrar um vinho mais duro e tânico, mas mesmo sem fugir do estilo tradicional dos grandes tintos chilenos (meio perfumados e intensos), ele conseguiu um ótimo equilíbrio na boca, privilegiando sempre o quesito acidez.

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REnace 2013

Esse poderoso Carignan contém nada menos que 15,5% de álcool, mas sua peculiar elaboração consegue a façanha de atenuar tremendamente sua percepção. Amadurecido em tinajas centenárias feitas de argila, o REnace é a obra máxima de Pablo Morandé! Um vinho que quase se faz sozinho (fermentação espontânea), exaltando a pureza da fruta, sem tirar nem por nada que possa alterar a expressão natural de suas uvas. Um vinho puro, incrivelmente persistente e que busca representar o REnascimento de um estilo de vinificação ancestral que já não existe mais.

Em resumo, esse excepcional conjunto de rótulos representa toda a maestria adquirida por Pablo Morandé em décadas dedicadas à elaboração de vinhos. Um trabalho artesanal e fenomenal que se sustenta nas castas Pinot Noir (do Vale Casablanca) e Carignan (do Vale del Maule). Infelizmente, esse esmero e foco na qualidade tornam seus vinhos um pouco mais caros que o desejável (variam de R$198 a R$850), mas em compensação, o nível de satisfação proporcionado também se mantém elevado.

Atualmente os vinhos da Bodegas RE são importados para o Brasil pela Grand Cru.

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1 COMENTÁRIO

  • Paulo Roberto de Lemos Rego - 30 de março de 2017 às 21:06

    Adorei a matéria, acabei de voltar do Chile e fiquei instigado à conhecer algum desses vinhos!

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