Degustação Vertical Borgogno Barolo Riserva 1947 a 2007: uma incrível viagem pelo tempo!

  • Luiz Cola
  • 11/maio/2017
  • 3 Comentários

Quem afirma não ser possível viajar através do tempo nunca participou de uma degustação de vinhos com a presença de safras muito antigas. Diante de uma oportunidade dessas, pelo menos “voltar” no tempo passará a ser uma possibilidade perfeitamente plausível. Nem vamos precisar da “Máquina do Tempo” imaginada por H. G. Wells!

É claro que a grande maioria dos vinhos não pode nos proporcionar tamanha façanha temporal, mas quando estamos diante de uma série de Barolos Riserva elaborados por um grande produtor, essas condições passam a se tornar bastante realistas.

Para conseguir fazer essa “viagem no tempo” através dos vinhos, foi necessário reunir seis excepcionais safras de Barolos Riserva (1947, 1958, 1967, 1971, 1990 e 2007) da histórica vinícola Giacomo Borgogno & Figli.

Localizada dentro da pequenina vila piemontesa de Barolo (que emprestou seu nome para esse grande vinho italiano), a Borgogno foi fundada em 1761, mas teve seu nome eternizado na história do país um século mais tarde, por conta da escolha de seus Barolos para a escoltar o almoço da cerimônia de unificação italiana em 1861.

Graças a grande longevidade desses Barolos Riserva (que passam por um amadurecimento mínimo de cinco anos em botti de carvalho) a nossa viagem ao passado remontou ao ano de 1947, ou seja, 70 anos atrás. Uma “eternidade” em termos vínicos, que só costuma ser vencida por poucos vinhos tintos secos no mundo, majoritariamente, os Barolos do Piemonte, os Châteaux de Bordeaux e alguns clássicos da Rioja.

Essa viagem vínica pelo tempo foi regressando lentamente ao presente através dos Barolos de 1958, 1967, 1971, 1990 e 2007 (todas eles de grandes safras na região). Para garantir a menor presença possível de sedimentos nas taças servidas, as garrafas foram mantidas de pé por quase um mês e cuidadosamente transportadas ao local da degustação.

Vamos aos vinhos:

Borgogno Barolo Riserva 1947

Do alto de sua longa existência, esse senhor de 70 anos ainda exibia a típica dicotomia presente nos Barolos clássicos: elegância e vigor. Aromas de sândalo, defumados e cogumelos associados com um paladar sutil e refinado, que logo se esvaiu na taça. Uma grata experiência!

Borgogno Barolo Riserva 1958

Grandioso! No auge de seus 59 anos esse Barolo fez jus a grande fama que seus pares construíram ao longo das décadas. Alguns aromas florais ainda se faziam presentes (algo como um chá de rosas), associados a um ligeiro alcatrão e notas de couro. Paladar equilibradíssimo, com taninos finamente polidos escoltados por uma acidez marcante. Brigou pelo posto de melhor vinho da noite com o 1967.

Borgogno Barolo Riserva 1967

Que privilégio beber mais um vinho nascido no mesmo ano que eu… Para melhorar, essa garrafa estava sublime aos 50 anos de idade! Ficou lado a lado com o 1958 na disputa de melhor vinho do painel. Estilisticamente, bastante similar a seu antecessor, destacando-se a meu ver por um pouco mais de intensidade em todos os seus atributos. Um vinho que certamente eu compraria se encontrá-lo novamente.

Borgogno Barolo Riserva 1971

Reconhecida por especialistas como uma das três melhores safras de Barolos em todos os tempos, o 1971 não deixou por menos e se mostrou em grande forma. Porém, curiosamente, ele não apareceu como o mais destacado para nenhum dos 12 degustadores à mesa. A meu ver, ele estava numa fase um pouco fechada, talvez se preservando para viver a plenitude em mais alguns (muitos) anos. Nariz marcante de cogumelos e notas defumadas, complementadas pela vigorosa elegância de seu paladar. Emblemático!

Borgogno Barolo Riserva 1990

Para minha surpresa, esse 1990 apareceu em 3º lugar nas preferências dos degustadores. Esse “adulto” de apenas 27 anos certamente brilharia muito mais na taça se degustado isoladamente, mas foi o suficiente para dominar a preferência daqueles que preferem esses vinhos com um vigor mais pronunciado. Promissor!

Borgogno Barolo Riserva 2007

Completando o painel, esse 2007 fechou nossa viagem de 60 anos através do tempo vínico (1947-2007). Degustado ao lado de seus irmãos muito mais experientes, ele pareceu meio desconjuntado e duro. Mas isso foi somente uma impressão relativa, pois eu já o havia bebido sozinho algumas semanas antes e o apreciei bastante. Depois de percorrer essa jornada evolutiva por seus pares, certamente vai ser difícil querer beber outra garrafa tão jovem quanto esta.

barolos-1947-2007
A viagem da cor através do tempo: o colorido caleidoscópio da passagem das décadas nas taças de Borgogno Barolo Riserva.

De volta ao presente, ficou a certeza de que viajar no tempo através de grandes vinhos (ou grandes garrafas como preferem alguns) é um raro privilégio e uma riquíssima experiência para nossos sentidos. Santé!!!

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3 COMENTÁRIOS

  • Jose Augusto - 11 de maio de 2017 às 10:57

    Maravilhosa degustação. Incrível ver a evolução das cores com o passar dos anos. Parabens!

    Caro Luiz, gostaria de sugerir/pedir um tema. Poderia falar sobre o tinto da Stags Leap que vencei o concurso de Paris? Trata-se do SLV ou do Cask 23? Já o experimentou? Gostaria da sua opiniao.

    Forte abraço

    • Luiz Cola

      Luiz Cola - 11 de maio de 2017 às 15:00

      Olá José Augusto,
      Bebi o Artemis e o SLV no final do ano passado. O Cask 23 nunca provei…
      Um amigo me convidou certa vez, mas declinei o convite na ocasião.
      Se prová-lo mais a frente, comentarei sobre ele.
      Dê uma olhada no meu instagram (@luizcola) e vai ver o comentário sobre os outros dois.
      Abs,
      Luiz Cola

  • Eduardo - 21 de junho de 2017 às 18:23

    Gostaria muito de comprar um Barolo desta marca, de 2007. Sabe onde encontrar aqui no Brasil? Grato.

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