Serena Pinot Noir 2011-2017: a trajetória de um surpreendente vinho brasileiro na taça!

  • Luiz Cola
  • 21/nov/2017
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Sempre gostei de participar de degustações verticais de vinho (onde provamos um mesmo rótulo, mas de safras diferentes), especialmente daquelas onde podemos perceber todas as nuances existentes entre as safras presentes e a evolução dos vinhos nas garrafas ao longo do tempo. Essa vertical de sete safras de Serena, um surpreendente Pinot Noir brasileiro, foi mais uma delas.

Antes de mais nada, cabe apresentar aos que ainda não o conhecem, essa pequena joia da viticultura nacional. O Serena é fruto de uma certa dose de “loucura visionária” do engenheiro agrônomo gaúcho Maurício Ribeiro. Em 2001, ele adquiriu um pequeno terreno no município de Nova Pádua (RS) para plantar suas primeiras videiras de Pinot Noir. Mesmo cercado de todos os cuidados e muito estudo, foram necessários 10 anos para que ele domasse as uvas produzidas com métodos biodinâmicos e o vinhedo Serena tivesse sua primeira safra comercial lançada em 2011.

Devido ao grande esmero na condução das vinhas e ao rigor com a sanidade das uvas durante a colheita, o rendimento do vinhedo Serena é bastante baixo (cerca de 14 hectolitros por hectare), resultando numa produção muito reduzida de garrafas (entre 1.200 e 1.800, conforme a safra). Isso sem considerar que houve anos (como 2014 e 2016) que a qualidade das uvas não ficou dentro do esperado e sequer houve produção de vinho.

Por conta dessas adversidades, típicas de uma agricultura orgânica e sem grandes intervenções, a solução encontrada por Maurício Ribeiro para produzir seus vinhos nesses anos difíceis foi buscar uvas de qualidade semelhante em outras paragens. A escolha recaiu sobre o vinhedo São Paulino, situado em Vacaria, nos Campos de Cima da Serra, uns 100 km ao norte do vinhedo Serena. Dele nasceu em 2016 o primeiro Serena Vinhedo São Paulino (com um pequeno aporte de 15 a 20% do Serena 2015).

Da esquerda para a direita: Serenas 2011, 2012, 2013, 2015, 2016 São Paulino, 2017 São Paulino e Serena NV

Falando sobre os vinhos em si, cabe reforçar a preocupação do vinhateiro em elaborá-los com mínima intervenção e utilizar os métodos mais naturais possíveis à disposição. A utilização de barricas novas durante a fermentação e o amadurecimento dos vinhos é adaptada a personalidade de cada safra (20% em 2012, 2013 e 2015, 30% em 2011, 2016 e 2017). Na fase de amadurecimento, os vinhos permaneceram nas barricas de 8 a 18 meses, conforme a necessidade de cada safra. O uso de SO2 também foi bastante restrito, apenas 25 mg/l antes do processo de engarrafamento.

Dito tudo isso, vamos aos vinhos degustados nessa interessante vertical de Serenas/São Paulinos, cobrindo todos os vinhos já lançados ao mercado desde 2011:

Serena Pinot Noir 2011

Serena Pinot Noir 2011 (1.800 garrafas produzidas): Eu ainda não sabia que o elegeria o melhor de todo painel, mas a exuberância de seu frescor e a pureza da fruta já deixaram claro para mim que ele era um Pinot Noir de alto nível, digno da nobreza da casta. Nele encontramos a clássica dicotomia dos pinots de excelência: elegância e persistência se balanceando no palato. Um vinho que parece ter chegado ao auge! Um daqueles vinhos que não queremos parar de beber… Excelente!

Serena Pinot Noir 2012 (1.500 garrafas produzidas): Ainda mais exuberante nos aromas que o 2011, com notas frescas que remetem a pitanga, framboesas e folhas secas. No paladar, mostrou-se um pouco mais contido que seu antecessor, mas não menos elegante. Na plenitude, prontíssimo para beber… Uma delícia!

Serena Pinot Noir 2013 (1.800 garrafas produzidas): O mais contido entre os três no que diz respeito ao frescor e ao caráter da fruta. Porém, ele compensa isso com um perfil mais estruturado, capaz de proporcionar uma boa guarda e evoluir bastante. Um vinho para o futuro!

Serena Pinot Noir 2015

Serena Pinot Noir 2015 (1.200 garrafas produzidas): O vinho menos consistente do grupo, mas nem por isso, menos agradável de beber. Exibiu uma coloração bem destoante dos demais, com aromas de frutas frescas e mato recém-cortado. Passeou de modo muito ligeiro pelo paladar, com taninos delicados e acidez discreta, oferecendo um caráter mais ameno que as três safras antecessoras. Para beber já!

Serena Vinhedo São Paulino Pinot Noir 2017

Serena Vinhedo São Paulino Pinot Noir 2016 (1.200 garrafas produzidas): Oriundo de um vinhedo mais ao norte e cerca de 200 metros mais alto, esse Pinot Noir (com um pequena adição de Serena 2015) mostrou uma fruta mais vigorosa e concentrada, mas sem que isso comprometesse seu equilíbrio no paladar. Nitidamente é um Pinot Noir mais austero que os Serenas, mas capaz de proporcionar muito prazer!

Serena Vinhedo São Paulino Pinot Noir 2017 (1.200 garrafas produzidas): O mais recente lançamento de Maurício Ribeiro parece ter conseguido incorporar boa parte da sutil elegância presente no Serenas nascidos em Nova Pádua. Apesar da juventude, com uma pontinha de madeira ainda aparecendo no palato, o São Paulino 2017 já está delicioso de beber. Antes mesmo dessa degustação, eu já havia bebido duas garrafas em dias quase consecutivos e fiquei muito impressionado com o que senti. Acredito que vai chegar no apogeu dentro de um ano ou dois, trazendo um pouco mais de consistência a um conjunto muito promissor (um provável mérito da qualidade da safra).

Serena N.V. Pinot Noir (1.200 garrafas produzidas): O Serena N.V. degustado foi a segunda versão elaborada, como se fosse uma espécie de “Ripasso” do vinho São Paulino de 2016 (com 12 meses de barrica) sobre os resíduos sólidos do Serena do ano subsequente (2017). Naturalmente mais redondo e afinado que os dois anteriores, esse N. V. (Non Vintage) rivalizou com o 2011 como o melhor do painel. Elegante, persistente e com uma pegada natural bem característica, mostrando a habilidade e sensibilidade de seu criador para extrair o melhor dessa associação. Belo vinho!

Aproveito o espaço para adiantar que o Serena Pinot Noir 2017 deverá ser lançado em abril do ano que vem. Segundo Maurício Ribeiro, a extraordinária qualidade da safra e as primeiras provas de barrica sugerem que teremos mais um excelente exemplar para se juntar a essa bela galeria de pinots elaborados no sul do Brasil.

Depois dessa vertical dos pinots criados pelo Vinhedo Serena, e de minha experiência prévia com outros excelentes pinots, como os elaborados pelo Atelier Tormentas (de Marco Danielle), é que temos condições bastante favoráveis para desenvolver vinhos de excelência com essa casta tão preciosa e caprichosa que é a Pinot Noir. Tomara que novos produtores, enólogos e vinhateiros sigam seus passos!

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