Degustação horizontal Domaine de la Romanée-Conti 1995: Grands Échézeaux, Richebourg e La Tâche!

  • Luiz Cola
  • 06/dez/2017
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Situado no coração da Côte de Nuits, na Borgonha, o Domaine de la Romanée-Conti (também conhecido pela sigla DRC) possui cerca de 25 hectares de vinhas no entorno de Vosne-Romanée, abrangendo os grands crus de La Romanée-Conti e La Tâche (ambos vinhedos monopoles), Romanée-Saint-Vivant, Richebourg, Grands-Échézeaux e Échézeaux. Em Côte de Beaune, na parte sul da Côte dÓr, o DRC possui um parcela expressiva do lendário vinhedo Montrachet (considerado o melhor vinho branco do mundo), uma pequena parcela em Bâtard-Montrachet (mas que não é comercializada) e, mais recentemente, ampliou suas vinhas com novas áreas em Corton, o único grand cru tinto da Côte de Beaune.

Beber qualquer um desses oito vinhos grands crus elaborados pelo mítico Domaine de la Romanée-Conti é um grande privilégio e objeto de desejo quase unânime entre os enófilos de todo o mundo. Infelizmente, a limitada produção desses vinhedos fica sujeita aos caprichos do mercado (e do marketing), cuja frenética demanda eleva os preços desses vinhos para patamares absolutamente proibitivos para a maioria dos apreciadores. O principal destino dessas garrafas é repousar nas adegas de ricos colecionadores (e investidores) ou serem bebidas como “troféus líquidos” por milionários, celebridades ou executivos de grandes empresas. Imagino que apenas uma minúscula parte desses vinhos acabe sendo apreciada fora desse contexto.

Essa pequena degustação horizontal, com três tintos da excelente safra 1995, pode ser incluída nesse último grupo de situações onde os vinhos do DRC são degustados. Graças a uma associação de fatores positivos, pude organizar essa bela degustação com o Grands-Échézeaux, o Richebourg e o La Tâche, para os membros de uma confraria que participo há mais de uma década. E melhor, sem causar grandes estragos em nossos bolsos.

DRC Grands Échézeaux 1995

O Grands-Échézeaux pertence a comuna de Flagey-Échezeaux e foi delimitado como vinhedo Grand Cru em 1937. Estabelecido pelos monges da abadia de Cîteaux durante os séculos XI e XIII, ele faz divisa com outro conhecido Grand Cru da região, o Clos de Vougeot. A área total do vinhedo abrange 8,84 hectares, dos quais 3,53 ha pertencem ao DRC. Para se ter uma ideia da importância das condições climáticas na produção dos vinhos nessa região, a quantidade de garrafas elaboradas pelo DRC nos últimos 20 anos oscilou entre 5.641 (2003) a 13.134 (2002). A safra de 1995 ficou numa faixa intermediária, com 9.253 garrafas produzidas.

DRC Richebourg 1995

O Richebourg está situado no coração de Vosne-Romanée, bem ao lado do célebre Romanée-Conti. Graças ao cuidado com a sanidade das vinhas, ele foi um dos últimos vinhedos a sucumbir a praga da filoxera em 1946.  A área total do vinhedo abrange 7,68 hectares, dos quais 3,51 ha pertencem ao DRC. A quantidade de garrafas elaboradas pelo DRC nos últimos 20 anos oscilou entre 6.230 (2008) e 15.742 (2009). Em 1995 a mesma faixa intermediária de produção foi obtida, com 10.075 garrafas produzidas.

DRC La Tâche 1995

Único vinhedo monopole entre os três degustados, o La Tâche nasceu como uma vinha monástica em Vosne-Romanée. Depois de muitos séculos, tendo passado pelas mãos de várias famílias nobres da Borgonha, o Domaine de la Romanée-Conti passou a ser o único dono desse fabuloso vinhedo Grand Cru em 1933. Naquela época, o La Tâche possuía menos de dois hectares, mas com a incorporação da parcela vizinha Les Gaudichots ele conta atualmente com uma área total de 6,06 hectares. Graças a essa maior dimensão, ele produz aproximadamente o dobro dos vinhos anteriores. Nos últimos 20 anos, a menor produção recaiu mais uma vez sobre a tórrida safra de 2003 (com 10.147 garrafas), enquanto a maior veio no ano 2000 (24.867 garrafas). A safra 1995 mais uma vez manteve-se na zona intermediária, com 21.118 garrafas produzidas.

Falando dos vinhos degustados em si, eu não tinha muitas referências anteriores dos vinhos do DRC, todas elas foram com vinhos mais jovens que esses: um Grands Échèzeaux (2007), um Échézeaux (2000) e um Richebourg (2001), provados em ocasiões distintas. Esses três DRC’s 1995 já tinham evoluído por 22 anos e apresentaram um perfil muito diferente, mais terrosos e profundos, com uma presença de fruta muito mais discreta que as provas anteriores. Esses 1995 exibiram vasta complexidade aromática, com um perfil de taninos bem afinados e elegantes, dotados de grande persistência no palato e fim de boca.

DRC Grands Échèzeaux 1995: Exibiu notas terrosas de sous bois e café torrado. Paladar austero, firme, com corpo leve e acidez revigorante. Taninos exuberantes e perfeitamente afinados completaram a cena, oferecendo longa persistência e intensidade.

DRC Richebourg 1995: Infelizmente essa garrafa ficou ligeiramente prejudicada pelo mau estado da rolha. O vinho teve uma pequena perda de líquido e evoluiu um pouco mais rápido que os demais, deixando um discreto traço de oxidação. Isso não impediu que ele pudesse ser apreciado, trazendo impressões bastante similares ao Grands Échézeaux. Eu destacaria a presença de uma maior concentração de taninos, gerando uma sensação de maior opulência no palato.

DRC La Tâche 1995: Esse La Tâche por si só faria valer toda a experiência dessa degustação… Que presença aromática, que equilíbrio gustativo! Confesso que fiquei com dificuldades para descrevê-lo mentalmente. Ao mesmo tempo em que ofereceu um grande vigor e estrutura, proporcionou delicadeza e sedução no paladar. Nada menos que… Magnífico!

Apesar dessa degustação ter sido uma excepcional experiência, cabe ressalvar aqui que é muito difícil justificar sensorialmente a relação preço x qualidade desses vinhos. Eles são realmente sensacionais, mas por conta da fama, marketing associado e escassez, eles acabaram ficando fora da curva dos grandes vinhos da Borgonha. Se olharmos pelo prisma do valor para quem vai realmente bebê-los, creio ser possível encontrar alguns outros grandes vinhos do seu calibre (ou quase) por preços (um pouco) mais acessíveis. Por outro lado, para aquela turma que os compra por status ou para investimento de longo prazo, esses sim, certamente estão fazendo um grande negócio!

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