só, na orelha

  • Lúcio Manga
  • 14/set/2014
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ps. leia a coluna de hoje ouvindo marcelo camelo mtv ao vivo com camelo, o marcelo.  acesse aí, vai: http://www.youtube.com/watch?v=aC6zp-1gVoA

 

coisas ditas ao pé da orelha são só para aquela pessoa e aquela orelha, porque o sussurro compromete e desconfigura mais o sujeito do que o muro… não há como escapar do comprometimento se houver uma fala que não seria dita a ninguém…

dizer é a capacidade de soprar as palavras ao vento da consciência em si… a voz, se posta na intencionalidade do falar, significa que há uma certeza pessoal… a raiz do sentido das palavras entrelaçadas nas páginas do dicionário (esse bordel de dizeres que precisam de uma orgia frases para que, de fato, seja algo dito) pode determinar a única chance de haver o que se queira dizer… mesmo quando o que se quer é gritar um xingamento, ou um lamento…

(então me leia aí, minha cara leitora – porque pra mim gente é sempre feminino –  leia aí essas palavras como se eu estivesse a dizer no pé da sua orelha…)…

o bazar das dignidades… há uma desgraça, uma vida desgraçada ao redor do seu bairro… independente do lugar onde você mora… a vida não é o que aparece daqui a algumas páginas… na coluna social, as palavras parecem todas girar em torno da felicidade que não está na carcaça da vida desgraçada de que falo… a vida que por agora sussurro é a do homem invisível…

o homem sem chances, aquele que está condicionado a nunca ter sequer a chance… não ter sequer a chance significa jamais poder erguer as pernas ao ar no desprendimento de simplesmente compreender o que significa satisfazer e se comprometer com a satisfação… morder o pão não com a necessidade da fome, mas simplesmente para cumprir o ritual de quem amanhece e prepara ou em si prepara para o café da manhã… sabedor de que é nesse instante em que se passa a manteiga no pão pelo prazer de proporcionar o gosto meloso que toda manteiga dá ao amolecer e a umedecer o interior do miolo mole do pão…

satisfação é algo que tem classe social porque não significa felicidade… felicidade compactua com a situação que, ao redor de quem se coloca feliz, gera a alegria de haver… satisfação tem a ver com a condição dessa palavra… se você sabe o que satisfaz os seus desejos significa fazer parte de uma condição social determinada para pouquíssimas pessoas… há sentidos que só significam em certeiro contexto… o sentido tem classe social…

as palavras e o uso das palavras têm classe social… por isso, como na vida, há uma favela e uma ilha do frade em cada página do dicionário… há palavras pedintes, palavras meretrizes e há as que frequentam a high society… os pobres servem em silêncio nas festas em que estão a trabalho… não há palavras espontâneas que saiam da boca das pessoas que, por serem pobres, servem nas festas em que os que se divertem comunicam-se…

a comunicação tem classe social… comunicação define quem é quem… e quem não é… limpar o que o outro suja é a escravidão da condição humana… esfregar o chão… os ofícios de quem não fala ao pé da orelha… quem tira a poeira da casa dos outros pode ser qualquer um… não importa a pessoa…

já reparou que há tanta gente comprimida dentro do corpo oprimido… oprimido é uma palavra que define, por exemplo, a classe social de quem pronuncia e de quem significa a ação verbal…

quando se estuda verbo na escola tudo parece um tempo passado presente futuro… o professor não se compromete em ensinar a realização dos verbos… que dirá das palavras… o verbo na sua arrogância das conjugações diz muito sobre exclusão social… submeter-se é pronominalmente o significado da condição de quem nunca mandou em outra pessoa a ponto desta se submeter mesmo, sem falcatruas momentâneas…

lendo até aqui fica a sensação de que este texto nada quis significar… e pode ser isso mesmo… só um dia infeliz dos dedos que não conseguiam ser capazes de dizer outra coisa a não ser essas palavras que se dizem ao pé da orelha…

olha lá como há uma infelicidade naquele ônibus lotado… olhe a infelicidade das pessoas que limpam a casa dos outros… olhe lá… não lá… naquele canto da quina da loja, como é infeliz a pessoa que dorme como lixo… essas pessoas então só existem no dicionário… elas pouco pronunciam palavras… ao pé do ouvido de quem ela poderia sussurrar?

 

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