evaporação

  • Lúcio Manga
  • 28/jan/2015
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nirvana2

 leia a coluna de hoje ouvindo sampa com caetano. acesse aí, vai:  http://www.dailymotion.com/video/x2csamj_caetano-veloso-sampa_music

 

o celular é um instrumento poderoso… os modelos que possibilitam acesso à internet e à fotografia, fabulosa perversa construção, (existem ainda os sem essa chance?) determinaram o fim da atenção ao cotidiano…

todo mundo – rico ou pobre – está conectado a si mesmo, na distração do outro (entendam outros) que desaparece… o outro virou contato… isolamento triste e silencioso… divulgar a todos o que se está fazendo a qualquer hora do dia… os detalhes…

registrar os momentos e compartilhar a felicidade momentânea (ou a infelicidade de qualquer outra pessoa) é o que determina a consolidação de uma massificação dos momentos… humano, esse demasiado, esgota (como faz com tudo o que vê pela frente) qualquer chance de diálogo ou de percepção da realidade…

quem vai se preocupar se é uma criança que serve a mesa em praias paradisíacas na bahia? o olhar dispara o gatilho da foto em direção ao prazer da beleza… aí, joga-se tudo nas redes sociais e cria-se a expectativa das curtidas… de modo que o pensar limita-se em o que se pode fazer para ganhar maior visibilidade…

internet e celular com câmera fotográfica, com pau de selfie falicamente imposto frente ao rosto parece gerar delírios maliciosos… adicionados ao refluxo da cultura da celebridade que adentrou o século 21, transformaram humano, esse demasiado, no centro das atenções dele mesmo…

não há espaço suficiente na memória para pensar o mundo… vivencia-se o momento sem o prazer do momento, porque há uma velocidade maior que a do prazer, uma velocidade instituída pela necessidade de satisfação no que se pode (ou não, mas se mostra assim mesmo) mostrar a todos…

toda e qualquer discussão em torno do coletivo pessoas ganhou, nos últimos anos, um adversário imbatível: o eu mesmo… as comoções ou ações nas redes sociais propagam ódios unilaterais por não haver tempo para a reflexão… com o celular nas mãos, as pessoas curtem sem ler… a ideia é fazer parte do grande circo…

o que escrevo é sempre uma olhadela que dou na vida que se movimenta ao meu redor… essa vida tão desumanizada… as pessoas andando pelas ruas falando ao celular com fone de ouvido ou casais sentados em bares a manipular cada qual seu interior virtual… toda essa cena de zumbis…

o custo desse comportamento, embora já apareça, ficará para pensadores do futuro analisarem… mesmo assim, não é difícil arriscar que há uma tendência forte para que a intolerância construa guerras diárias do eu contra tudo o que se coloca na frente da vontade de falar com todo mundo, logo, com ninguém e de aparecer na foto…

é a configuração do absurdo… a mecanização da comunicação… porque com divulgação de todos os momentos para tantas pessoas, pode-se avançar por sobre a modernidade líquida e pensar em uma sociedade que se dissolve das particularidades… e se dissolve…

a ideia de indivíduo compartilhado formula um código diferente… que a geração de jovens absorve sem o deslumbramento dos acima dos 30… divulgar-se é o resultado de uma sociedade que se alimentou de entretenimento… a maior fonte de informação veiculada e acessada no século 21 está diretamente relacionada à vida das pessoas…

se antes eram os artistas, hoje, é o cidadão comum que se coloca como notícia… qualquer fato, por mais imbecil que pareça, ganha aspecto de notícia… e é aí que acredito haver uma movimentação avançando por sobre a modernidade líquida de que fala baumam…

a ideia da sociedade que, sem solidez, líquido se tornou, gera um componente novo que está amarrado ao que se desenrola dentro do indivíduo… naquele papo que já levamos aqui de que freud errou na mosca e já mostrava que a particularidade do indivíduo não o possibilita comprometer-se com a ideia de sociedade… pois é… agora o líquido evapora-se…

de modo que há uma nova relação eu-mundo… o mundo figura como cenário de fundo para os inúmeros eus… o celular e sua indumentária comandam o cotidiano… não fossem os inúmeros carros que afrontam a movimentação coletiva… seria a cidade de um silêncio ensurdecedor a digitar e a falar particularmente… não há pássaros… só há o silencioso mundo da evaporação humana…

 

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