as entranhas coisas que não se quer saber

  • Lúcio Manga
  • 09/out/2015
  • 3 Comentários

leia a coluna de hoje ouvindo o camelo e o dromedário, dos titãs. acesse aí, vai:

https://www.youtube.com/watch?v=_j6dkvtpyRk

                                                                                          

onde fica a parte do corpo em que se esconde o outro? onde se fincam as dores dentro do analgésico depois que tudo passa? onde estão os meios se nunca se justificam os de fato? onde se pode encontrar comida sem código de barras? onde se introduz a língua quando a boca afasta? onde se locomovem os vermes dentro do estômago cheio? onde se reparam os dentes quando ninguém está de olho? onde se esquece do outro depois do até logo?

como erguer as mãos aos céus se, meu deus, sou sempre mãos atadas? como perambular por fora se o meu jeito é dentro? como se enrola o cabelo se os fios são atentos? como explicar o erro se não há acertos de contas? como decifrar o segredo se o papel só diz combinações perfeitas? como desconstruir a arte se tudo é antes tarde do que nunca? como juntar todo dinheiro se a morte não aceita moedas?

quando tudo entope fica-se de saco cheio? quando a fé pede passagem é um deus nos acuda? quando eu não presto eu sou aquela? quando as formigas chegam não há doce que resista? quando um preto morde o gemido é klu klus klan? quando o termômetro aquece o corpo é febre em alta? quando ela não me enxerga é num piscar de olhos? quando se quer melhor não se consumir? quando não há mais migalhas os pés se desaliam? quando a vida acaba quem responde por mim não sou mais eu?

por que os relógios param melhor não dar corda? por que(m) os sinos se dobram melhor ficar calado? por que a água é pura o gosto divino-maravilhoso? por que nem sempre há melhor não reexistir? por que as borboletas caem é que se constrói casulo? por que um dia é igual ao outro é que se se faz de morto? por que deixar pra depois o que seria antes? por que não aparecem saídas quando há escapatórias? por que a trama do filme não envolve o escurinho do cinema?

qual é chave para o insucesso? qual é o outro depois de você senão os outros? qual é o número do telefone que se deixa por conta de um encontro? qual verdade é uma mentira resumida? qual é o nome que se dá a quem não se registrou? qual dessas portas funciona como precipício? qual medalha de honra traduz que o importante é competir? qual desses pecados pode ser mantido em segredo? qual foi o primeiro homem que cuspiu no vão?

em que consiste esse meio termo? em que destino se deixou o incerto medo? em que cilada se caiu por tropeço? em que dente a cárie morde antes de se lamber os beiços? em que aperto o gosto não resiste e se evaporra? em que ciúmes se pode confiar um no outro? em que passagem fica a próxima estação? em que sentido fica a mesma direção? em que armário se escondeu esse tal de atrás?

que desertos atravessei, só eu sei? que mentiras sinceras me interessam? que desgosto tem a maçã do amor? que bote salva vindas se não se quer portas abertas? que cena retrata bem o exemplo inescrupuloso? que meninas querem ser mulheres depois dos trinta? que complexo é esse senão o mesmo édipo de sempre? que teoria explica a área da fissura geométrica? que abalo sísmico é capaz de tremer de medos? que recado ler se as palavras calam o que eu não esqueci? que presente pedir quando é dia adia?

quem foi que disse que eles podem vir aqui fazer xixi? quem quer dizer na alegria e na tristeza? quem faz castelos de areia torce pelos ventos? quem tempera a carne quer desgosto? quem soletra palavras entende meias palavras? quem abastece o combustível para o tempo todo para? quem com ferro feri com perdas será feliz? quem não foi capaz deixou de ser pessoal? quem se admirou com o berro que o gato deu miau? quem pede esmola ergue quantas necessidades? quem é um fraco recorre à malhação?

com quantos paus se desfaz uma canoa? com que frequência se deve dizer amor i love you? com qual dos dedos se lubrifica o gozo? com um adeus é capaz de se dizer enfim? com pernas pra que ti quero melhor ficar parado? com um sorriso no rosto fica tudo mais caro? com pênis de plástico o gozo não morre? com dinheiro na mão é vendaval? com algumas horas se leva tempo? com esse disse me disse fica-se sem saber? com esse molho o recheio se derrete todo?

e se a luz dos olhos seus e a luz dos olhos meus resolvessem se encontrar?    e se não houvesse uma curva, ficar-se-ia sem saída? e se a cocacola trouxesse o seu nome, você precisaria de identidade? e se todo amor fosse gay, você seria macho? e se existisse uma luz no fim, você insistiria no túnel? e se o mundo fosse outro, você viveria pra valer? e se não houvesse amanhã você insistiria? e se o jockey club promovesse alguns páreos com jumentos? e se tudo não passasse de um sonho de nada adiantaria? e se se deixa pra lá, as perguntas se responderiam?

([email protected])

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3 COMENTÁRIOS

  • Ramiro Conceição - 17 de outubro de 2015 às 15:11

    PRA ONDE? PRA ONDE? PRA ONDE?
    PRA QUANDO? PRA QUANDO? PRA QUANDO?
    PRA QUEM? PRA QUEM? PRA QUEM?…
    *
    *
    O GOLPE
    by Ramiro Conceição
    *
    Se Eric Arthur Blair reencarnasse; se nessa nova adolescência plantasse bananeira para ver de novo o mundo de ponta cabeça e, assim, escrevesse poesia; se não levasse muito a sério a formação acadêmica; se visitasse as favelas; se falasse português; se fosse brasileiro; se um viajante fosse, a conhecer todos os bueiros latino-americanos; se, enfim, constatasse ser um escritor e virasse, antes, um jornalista, não aquele costumeiro capacho do status quo, mas aquele outro que desenvolvesse mais uma vez, acima de tudo, um senso de justiça diante da miséria; se concluísse definitivamente que uma parte considerável da classe média não passasse de um volúvel aglomerado disforme de violentos, fascistas e ignorantes; e se voltasse a lutar, não contra Franco, Mussolini ou Hitler (já vencidos!), mas contra os donos da caverna brasileira; é, de fato, escreveria o que estamos a contemplar “O GOLPE DAS CAPIVARAS”.
    *
    BARCOS BRASILEIROS
    by Ramiro Conceição
    *
    Nas praias do Brasil,
    barcos são patéticos.
    *
    A ESPERANÇA
    está de papo pro ar.
    *
    A LIBERDADE,
    no quebra-mar,
    está prenha
    de peixes e
    de homens:
    aqueles do mar, ao ar,
    estão mortos; aqueles
    do ar, ao mar, têm
    saudade da cidade.
    *
    De repente, relâmpagos,
    sustos de santa bárbara,
    e a tempestade da malícia,
    da crina da maresia, criou
    a ventania: naufragou o SENADO;
    a CÂMARA naufragou; a JUSTIÇA
    ficou à deriva; e a DEMOCRACIA
    foi quase a pique; mas ainda bem
    que o ÓDIO foi derrotado
    pelos rochedos marítimos
    da República…
    *
    É, pela 2ª vez a PRESIDENTA valente
    chegou à terra firme… com altivez.
    Mas o IMPEACHMENT… susssssurra!
    *
    *
    PADRE INÁCIO
    by Ramiro Conceição
    *
    Não assisti integralmente à sessão do TCU. Por outro lado, acompanhei integralmente o parecer do Relator que não aprovou as contas de Dilma, em 2014. Não tenho erudição em contabilidade e nem em economia… Sou engenheiro e poeta (não necessariamente nessa ordem).
    *
    Imagino eu que no conteúdo da defesa, contido nas tais 3000 páginas entregues ao Tribunal, as semelhantes situações fiscais ocorridas em governos anteriores, e aprovadas pelo TCU, tenham sido claramente descritas, pois esse era, e é, o principal argumento de defesa.
    *
    Assim, aguardei que o Relator, em sua controvérsia, rebatesse tecnicamente, ponto a ponto, a argumentação da defesa. Todavia, ao invés de fundamentos técnicos, houve apenas justificativas morais… Não houve qualquer erudição, na fala do Relator, a justificar as aprovações anteriores do TCU a corroborar, agora, a reprovação das contas do governo Dilma. Ficou a clara impressão de que o passado, a memória, a história do TCU na realidade nunca importou.
    Ou seja, se um governo em um dado contexto interessar politicamente ao Tribunal, então, as tais contas, automaticamente, serão aprovadas… Mas, se, por outro lado, for um adversário em um tempo em que a DITADURA DA DESINFORMAÇÃO for hegemônica, aí, minhas senhoras e meus senhores:
    *
    “Não encham o saco, reclamem com o padre Inácio, no guichê ao lado!”.

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    PRA DILMA
    by Ramiro Conceição
    *
    Entre os dionisíacos tropeços de vinhos,
    de mil pedaços  nasceu um espantalho
    apolíneo, que teima em proteger todos os ninhos.
    Por isso - sem malícia – Picasso recorta espaços
    de um quadro, a ensinar Portinari; enquanto Einstein
    ao tempo lança pedrinhas; mas Garrincha ri ao vento,
    pois deixou Van Gogh a procurar o amarelo dum gol
    dourado de Pelé, num sonho de Pessoa que, bêbado,
    dorme até a hora da chegança de Caeiro com os seus
    carneiros a balir entre os dentes os poemas de Dante,
    de Goethe, de Poe, de Rilke, de Bandeira, de Whitman,
    de Drummond à colossal manhã provisória do mundo.
    Nietzsche explica o eterno retorno… Mas Shakespeare
    reescreve: sem matar ninguém; e Cervantes abandona
    Dulcineia a Camões que não é só zarolho; e triste, Marx procura
    decifrar a história que Dostoievski crê estar nas batatas de Deus
    que Machado doou ao vencedor; Sócrates cutuca Platão: “Freud
    está feliz”; enquanto Joyce, Homero, Bach e Lennon&McCartney
    inventam um cancioneiro para Beethoven, que pela primeira vez
    irá ouvir, e para Dilma que quase ri… plena de si.
    *
    *
    BORA!
    by Ramiro Conceição
    *
    *
    Bora pra rua!
    Pois foi de lá que a Estrela Vermelha nasceu.
    Bora pra rua! Pois é lá que inventamos, nós !

    • Ramiro Conceição - 17 de outubro de 2015 às 15:43

      SE
      by Ramiro Conceição
      *
      *
      E se, sem resgate, sem justiça,
      sem apocalipse, sem redenção,
      sem amor, memória ou história,
      sem epistemologia, filosofia, poesia ou sem ciência,
      tudo terminasse como se não houvesse acontecido?
      *
      E se o tal “tudo posso naquele que me fortalece”
      vier sempre acompanhado dum dízimo matreiro
      para que se deixe a rabeira e se vire um camelo,
      a mais, a perpetuar a sede insensata do mundo?
      *
      E se não existir ética, moral, alma ou espírito?
      E se o ápice da evolução for essa acumulação,
      essa coisificação, esse lixo, fixo, sobre tudo?

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