liberdade sem chances iguais é liberdade?

  • Lúcio Manga
  • 21/fev/2016
  • 3 Comentários

leia o texto ouvindo haiti, com veloso, o caetano… acesse, vai:

http://www.youtube.com/watch?v=EDB2nZSbkLg

 

na raiz das minhas veias corre o sangue da minha avó branca, olhos azuis, e dona do gosto da galinha ao molho pardo que comia nas visitas dominicais… o gosto foi embora com a minha avó, morta e enrolada em um lençol… a última cena… meu pai chorando… entristecido dentro da brutalidade… e corre o sangue do meu avó negro retinto… que nunca conheci porque morrera antes de eu existir de nascimento para fora do corpo da minha mãe…

minha história sempre foi um filme preto & branco, como os laços amorosos do meu avó e de minha avó, e como a cor da tv que ilustrava quem éramos na periferia de vitória no final dos anos de 1970… meus outros dois avós eram meio brancos, meio pardos… e havia pouco contato… mas são os meus avós p&b que me vêm por hora, nesse momento em que a chuva parece querer deixar todas as vontades embaixo das cobertas, na escuridão…

assistir a filmes é a melhor forma de construir necessidades interiores… os filmes dizem pequenos retratos da vida real, e como deseja o poeta, na hora da canção o que eles dizem, baby? eu não soube o que dizer, e nem… como é que eu troco de canal?

na dúvida, revisitei malcolm x, de lee, o spike, e me inquietei com a ideia do dicionário… mas vale uma explicação porque venho de uma avalanche cinematográfica de férias… crash, amistad, histórias cruzadas, quanto vale ou é por quilo?, faça a coisa certa, conduzindo miss daisy, agosto negro… uma escuridão de sentimentos com molho da biografia sobre cruz e souza escrita por leminski… experimente aí pra você ver, ou sentir o que estou querendo dizer… isso tudo pra querer dizer que o dicionário, em cena de malcolm x, foi o que me deu o estalo para esse breve sentimento de palavras…

no houaiss, é possível encontrar negro \ê\ substantivo masculino ( sxiii) a cor do piche; preto. ( 1549 ) epíteto atribuído aos indígenas brasileiros pelos primeiros colonizadores brasileiros. que absorve todos os raios luminosos visíveis incidentes ‹ buraco negro. etimologia lat. niger,gra,grum ‘negro, que tem a pele escura; sombrio, escuro, tenebroso’; ver nigr-; sxiii é a data para o adj. ‘que apresenta a cor negra’, e sxv é a data para o subst. ‘a cor do piche’. sinonímia e variantes ver sinonímia de malvado e sujo antonímia alvo, branco, claro.

e branco, que tem a cor da cal, do leite, da neve recentemente caída. diz-se dessa cor ‹a cor branca acalma›. é produzida por reflexão, transmissão ou emissão de todos os tipos de luz conjuntamente, na proporção em que existem no espectro visível completo, sem absorção sensível, sendo assim totalmente luminoso e destituído de qualquer matiz distintivo. relativo a ou indivíduo de ascendência branca que não tenha o seu sangue misturado ao de outros grupos de cor de pele diferente. tratamento respeitoso de submissão que os homens brancos recebiam por parte dos negros escravos. patrão, pessoa importante ou pessoa da classe dominante. indivíduo de qualquer tom de pele pertencente à cultura hegemônica, classificada como civilizada, em contraste com os índios, habitantes autóctones.

significar negro em uma sociedade prescrita pelas instituições brancas é uma relação assombrosa como o que se pode fazer com a ideia de humano… nos eua, a coisa era ku klux klan, aqui é exclusão. embora clichê, e eu adoro um clichezão… basta um olhar para o sistema penal e para a miséria insustentável das periferias… um sentimento qualquer ao som ao redor, para que se perceba a necessidade inclusiva… quem é contra a política de cotas raciais não é negro o suficiente para compreender a necessidade de afirmação… ou não assiste aos filmes certos, ou não lê dicionário, ou jamais irá a uma livraria comprar vida, de leminski, para entender poeticamente o sofrimento de cruz e souza… filmes e livros denunciam sempre o que há de pior no ser humano… a doença do existir… mas não todos os filmes, ou todos os livros… e esse deve ser o motivo para uma sociedade tão emburrecida, tão incapaz de encontrar uma vida que valesse apena viver, calar-se diante das injustiças que ainda marcam o legado da dominação… a casa grande é o sonho de consumo, como querem os intervalos comerciais, da senzala… liberdade sem chances iguais é liberdade?

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3 COMENTÁRIOS

  • Janaina Dezan - 21 de fevereiro de 2016 às 19:32

    Mais uma vez, brilhante!

  • Yoná Natalli - 23 de fevereiro de 2016 às 19:56

    Brilhante, professor!

  • Ricardo - 5 de março de 2016 às 19:54

    Os primeiros escravos eram brancos, os Eslavos. Houve e há escravidão em várias épocas e culturas.
    Somos mestiços, tenho muita dificuldade em aceitar o discurso segregador do racismo como é usado pela esquerda hoje.
    Cotas? Sou favorável a cotas sociais. Brancos pobres são muito mais sofridos do que negros ricos.
    Nossa atenção precisa se voltar para os que roubam dos nossos filhos e netos, independente da cor da pele.
    Hoje vemos o discurso divisionista, tentando colocar uns contra os outros, mas isso é só cortina de fumaça para nos distraírem e nos assaltarem.
    Uma escola pública de qualidade, um sistema meritocrático que valorize a inteligência e o talento (que não dependem de cor de pele) e apóie os jovens capazes até o total desenvolvimento de suas potencialidades. Isso é justiça social.
    A liberdade é o bem mais precioso que um indivíduo possui e as pessoas, por serem diferentes, não aproveitam da mesma forma as “oportunidades iguais”.
    Sim, a liberdade é um tesouro de valor incalculável e quanto às oportunidades, nem todos estão dispostos aos sacrifícios necessários para aproveitá-las.

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