o diário de dona diva magalhães

  • Lúcio Manga
  • 01/abr/2018
  • 1 Comentário

leia o texto ouvindo a carne, com elza soares… acesse aí:

https://www.youtube.com/watch?v=yktrUMoc1Xw

o que teriam em comum os comentários sobre o assassinato de marielle e a proibição da obra (versão quadrinhos) o diário de anne frank?

reposta: programa espelho, em que lázaro ramos entrevista a senhora diva guimarães.

em fala conduzida por voz em primeira pessoa sufocantemente doce, dona diva guimarães apresenta para o público a dor de ser mulher e preta, de simplesmente existir em um corpo social, cujo sintoma profundo é o de escravizar… costume determinado pela sociedade dos indivíduos, da individualidade perversa e sem relações, de fato, humanas…

trabalhar em projetos sociais e se dedicar a uma mudança de paradigma, para indivíduos condenados à ausência do estado, exige qualidade e dedicação que poucos são capazes de vivenciar… nesse caso, vale a ideia de que “falar é fácil”, porque se dedicar ao dia a dia, enfrentar a opressão do organismo social, cujos anticorpos agem expelindo os corpos determinados como estranhos, é realmente de tirar o chapéu…

marielle, por tudo que busquei para saber quem era a moça assassinada, era esse tipo de humano… estava lá, no caos, dedicada a buscar salvação… empenhada em desconstruir a lógica do absurdo… prontamente a postos… como muitos outros, ainda bem, que saem da inércia e se dedicam a resgatar humanos da condição imposta pela ausência do estado…

foram inúmeros compartilhamentos e postagens e falas a condenar a moça, pobre moça, e a tentar fazer comparações que somente os iletrados e os insensíveis são… (penso, logo resisto)… capazes de conduzir como argumento…

gente que inventou mentiras, essa doença contagiosa, e gente que compartilhou sem se dar ao trabalho de ao menos ler sobre a vereadora… duas espécies humanas que precisam ser isoladas… não se pode querer ser amigo de pessoas que propagam o mal, porque simbolizam o que há de pior do humano, esse demasiado…

além disso, há os que quiseram comparar a sensibilização pelo assassinato de marielle à não comoção pelo assassinato de outras tantas pessoas vítimas da violência… um equivoco, a meu ver, porque marcados pela fatalidade e não pela tentativa de apagamento da existência… o que não significa negar a dor… e digo ainda que esse sentimento é fruto do medo de não ser a próxima vítima…

nesse sentido, seria interessante pensar nas mortes conduzidas pela fatalidade e buscar o elemento motivador… se assim fosse feito, seria possível chegar à conclusão de que o modelo de sociedade… o que eu ouvi da boca de dona diva magalhães… é que mata a médica, usada como comparativo para a desconstrução da morte da vereadora…

ela, a médica, e tantas outras pessoas que, presas da existência do acaso, perdem o direito de poder simplesmente viver… isso é de uma dor avassaladora…

agora, marielle foi assassinada, foi descartada para deixar de existir… isso é tão doloroso quanto os assassinatos do cotidiano, mas é diferente… e essa diferença exige leitura e interpretação de texto…

nessa perspectiva, quando um pai resolve questionar o diário de anne frank como não adequado para sua filha… causa-me espanto, mas confirma a postura do organismo social adoecido do qual faço parte…

a postura da escola na qual estudei da infância à juventude me decepcionou, porque deveria ter sugerido ao pai trocar de escola… ao retirar a obra, clássico universal, a escola perdeu para o leigo, para quem não sabe sobre o papel da literatura… para a ignorância desses tempos… que nem leu que, na obra em questão, há relato sobre um episódio devastador da história humana… o terror a que foram submetidos milhões de pessoas condenadas aos campos de concentração…

como pai, posso querer pelo meu filho? não sei responder… o meu já está com 22 anos… mas me eduquei como pai a não querer pelo filho do outro…

em entrevista à rede gazeta, a coordenadora do grupo de pesquisa, literatura e educação da universidade federal do espírito santo (ufes), a companheira, maria amélia dalvi, foi esclarecedora:

“tem uma coisa, que a gente sempre precisa se lembrar: qual é o papel da literatura na escola? a literatura existe para complexificar a compreensão do real e ela faz isso quando nos defronta com questões difíceis da existência. eu penso que uma obra que foi escrita por uma adolescente entre os 13 e os 15 anos, abordando coisas que passavam pela cabeça lá década de 40, e que se tornou após publicação um clássico juvenil no mundo inteiro, é um material muito importante que precisa sim ser debatido nas escolas”.

… compreender o real, parece ser a lição que muitos não conseguiram aprender na escola, esse espaço que, em muitos casos, está abandonado na esfera pública,  e, em outros tantos casos, refém do mercado e da competição na esfera privada…

… compreender a complexidade da existência, exige leitura eterna de todas as grandes obras literárias escritas por aquelas pessoas capazes de reproduzir o humano e a sua condição neste mundo que nos cerca…

foi o que me incomodou neste domingo cristão… e me fez ver a vacina, para o corpo social adoecido, na existência de dona diva magalhães, marielle e anne frank…

 

( [email protected] )

 

 

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1 COMENTÁRIO

  • filipe oliveira - 2 de abril de 2018 às 11:43

    Tempos obscuros em que, mais de meio século depois, descobriu-se que Anne Frank era uma menina, adolescente, dona de um órgão sexual e, por isso, decidiu-se escantear uma das mais significativas obras sobre o absurdo do holocausto.

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