o silêncio é covarde

  • Lúcio Manga
  • 14/abr/2018
  • 2 Comentários

leia o texto ouvindo après, com iggy pop… acesse aí:

https://www.youtube.com/watch?v=pKqhfvA9tOk%20%20

é preciso sempre dizer… a fala sinaliza que se está vivo, diante do mundo ao redor…

nesse contexto, em que a vida em rede é capaz de fazer com que o todo seja menor que a parte, condensando a complexidade do humano em suas variáveis individualidades… a reunião dos inconscientes.

no olho desse furacão líquido, cujo movimento impõe o afogamento da razão, os comportamentos emocionais afloram as vontades individuais e determinam a famigerada guerra hobbesiana de todos contra todos… o impulso das insatisfações coletivas… a tristeza como bandeira… há poucas chances nesse contexto das oportunidades anunciadas, afinal, quem não quer ser?

… os anúncios classificados da existência fomentam as vontades medíocres de quem está disposto a passar por essa vida lamentando o passado, negando o futuro e deixando em silêncio o presente… no existir, o presente se coloca como o ponto chave para a construção do si mesmo, e esse movimento no xadrez da realidade exige mais vontade de potência… mas as doses aplicadas são de castração das vontades…

… há uma pedra no meio da existência… porque o mundo deixou de ser vertical, no sentido que o professor jorge forbes denominou a vida passada, em que os lugares estavam bem definidos, e passou a existir na horizontal… isso significa que há, nesse tempo do já, do agora, uma realidade marcada pela indefinição dos papeis… é como se estivéssemos em um filme em que os atores escolhessem ser o ator principal… o equívoco dos que vendem que se pode ser o que se quiser, bastando para isso querer… a bobagem doentia desse tempo… é preciso se livrar dessa maldição da autoajuda… do mundo das possibilidades…

… a pedra no meio do caminho da existência é intransponível… é preciso se suportar, e como isso é um desafio tão assustador, os anunciantes dos intervalos comerciais do existir vendem impossibilidades… e, seduzido por essa não-chance, caminha-se para o fracasso…

por isso, a desconfiança é … das sensações humanas… o mecanismo de defesa… se você que me lê reparar bem, foi exatamente esse o sentimento retirado de sua vida… desconfiar é o que movimenta os conflitos internos… sentir exige caos… é um morder-se de medo o tempo todo, porque se se respira é preciso estar atento, e estar atento significa desconfiar…

acreditar, verbo com simbiose religiosa, é a droga mais danosa… porque coloca o brigadeiro virtual na mão de todos… o doce sem gosto… repare que o instantâneo das postagens do si mesmo denunciam uma felicidade artificial… as redes sociais são o nosso show de truman… porque você, ali, não passa de personagem, doa seu tempo… e fica infeliz… porque sabe que ninguém se importa se você foi à praia ou está comendo bolo ou está em uma festa… ninguém se importa mesmo e isso se sabe bem… embora se vivencie a ilusão do existir para todos… a celebração das celebridades castradas e impotentes… postagens sinalizam o “eu” de mentira… ninguém posta para não ser curtido… acentua-se, então, o fracasso mais doentio… a vaidade…

as postagens são pra si mesmo… é o retrato da sua solidão compartilhada… e isso é o fracasso… o fracasso do si mesmo coletivizado … de modo que, esse tempo é o tempo dos fracassados… é o resultado mais evidente de que o sistema de anulação social arrebanhou a todos… ninguém é novidade…

… por isso, a desconstrução do silêncio é a rua… é o espaço concreto que precisa de compartilhamento… desconstruir a rua como morada foi o grande golpe instituído à existência… se não voltar às ruas imediatamente, o humano deixará de ser demasiado e será sufocado pela inércia… perderá o lugar no mundo… viverá amaldiçoado sem expressão… a rua é a expressão das diferenças, é o espaço em que se descobre que há um suor a escorrer pelo corpo… o oxigênio da vida é a libertação da prisão virtual…

ver o outro em carne e nervos ainda é a maneira de se perceber sensível… de ver que o ao redor implora por diversidade e vontades deliciosamente carinhosas…

como cães, devemos lamber a convivência… amar é abanar o rabo… incansavelmente é preciso lutar para que se possa ser de verdade…

 

( [email protected] )

Publicidade

2 COMENTÁRIOS

  • Gazu - 14 de abril de 2018 às 15:14

    A reflexão está posta, mas deconfio que nem as ruas nos reconhecem mais. A quanto tempo que não escuto uma piada plural, por exemplo, daquelas que o emissor não esteja abertamente inaltecendo suas idiossincrasias por meio do ridículo alheio, porque ridículo passou a ser sempre o outro.

    • Gazu - 14 de abril de 2018 às 15:19

      Olá, o comentário está a mercê de correção. Favor, caso o aproveite, embutir um “desconfio de” e um “Há quanto tempo”. Grato!

DEIXE AQUI SEU COMENTÁRIO