o whatsapp é o holocausto…

  • Lúcio Manga
  • 20/maio/2018
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leia o texto ouvindo Baader-Meinhof Blues, com a legião urbana… acesse aí:

https://www.youtube.com/watch?v=QT0-ZX_e83E

… é o que percebo… porque lendo “modernidade e holocausto”, de zygmunt bauman pode-se entender o holocausto como uma realização humana… uma fuga da castração moral imposta pelo projeto civilizacional… uma doença da nossa civilização…

por esse ângulo, o genocídio se configura de modo mais amplo e possibilita (delírio?) pensar no que satisfaz o indivíduo contemporâneo…

embrenhemo-nos no caso da policial, mãe, que, em ação categórica, lança tiros sobre o corpo de um indivíduo a empunhar arma e a consolidar assalto na frente de uma escola… crianças cercadas de mães por todos os lados… o apelo é importante, porque condiciona o espectador… e porque quem me lê sabe do caso e provavelmente assistiu ao vídeo… a sensação é de dever cumprido… tudo se resolveu em um piscar de olhos… a morte resolve qualquer problema… morte matada também?

a complexidade dessa questão exige entrega na honestidade do raciocínio, por consolidar a ideia de que houve bravura… mas, pensar sobre a questão de modo destemido, e insistindo, em honestidade, sugere desconfiança…

matar não pode ser a glorificação, por subverter o organismo social e o funcionamento das coisas humanas… não se pode desejar que matar se converta em orgasmo, em realização de desejo coletivo… se isso se confirma, fundamenta-se a barbárie como redenção… o holocausto do cotidiano… o todos contra todos… e aí o filme, pensando em roteiro com força de bilheteria, apresentaria a catarse subjetiva em realização concreta, em outras palavras, é possível torcer pelos bandidos de “la casa de papel”, e não torcer pelos bandidos da vida real, eis a questão?

… convido o leitor para assistir ao documentário “o ônibus 174”… a narrativa que apresenta o vilão da vida real leva o espectador mais sensível a considerá-lo vítima… não do episódio em si, mas da vida… pisoteado e espancado ao final do evento, fica clara a predisposição do humano ensandecido para a barbárie… e essa condição é bastante distanciada dos debates infundados a ilustrar as redes sociais e o tribunal dos inconsequentes… cair nessa cilada tem sido a publicidade de si mesmo que o indivíduo contemporâneo encontrou para sustentar a sua mediocridade… o protagonista inexpressivo opina sem formulação ou repertório e sentencia a vingança sem as próprias mãos…

por tornar público os instintos, o humano se manifesta da forma mais assustadora… racismo, homofobia, violência contra a mulher… são realizações humanas… o holocausto do cotidiano…

…e se se considerar a banalidade do que se reproduz como notícia e informação, como a construção do repertório da sociedade, não se poderia esperar outro resultado… a guerra de todos contra todos… o mundo ficou confuso de uma forma não antes vivenciada, do ponto de vista histórico, porque a realidade contemporânea apresenta o recurso da comunicação em rede… essa condição tecnológica tem cobrado um alto preço… e me parece que ainda há muito o que piorar as relações humanas… e insisto nessa piora, pois é aí que precisamos focar… é necessário desconstrui-la…

no caso da pm que mata o bandido na frente da escola, não li, nas redes, quem houvesse sequer comentado algo ou que houvesse se preocupado com as crianças que assistiram à execução… é disso, exatamente, que falo… qual seja, quem vai desconstruir essa imagem na cabeça dessas crianças? e antes que alguém se manifeste intempestivamente, já considero o fato como realizado, o bandido está morto… de modo que agora, nesse contexto, deveriam se perguntar os adultos se essa foi uma morte boa… na frente de crianças… a fatalidade está posta… a tragédia grega fake por não trazer redenção, e o poder público, penso, erra ao condecorar publicamente a policial… insisto, ninguém pensou nas crianças que foram para casa, no dia da morte do bandido, e que consolidaram em suas cabecinhas a violência em sua forma mais perversa… a morte matada…

…e por isso o atrevido título a dar nome a esse texto… não há desconstrução do holocausto… ao contrário, o que está em questão é se essa realização humana, de fato, faz parte de um período histórico… a realidade cotidiana me assegura que não…

em muitos grupos de whatsapp o que se vê é o grotesco desfilando nas próprias mãos… na particularidade de cada indivíduo… há muitos compartilhamentos de mortes e linchamentos… de exploração da desgraça que acomete os humanos… e não se deveria alimentar essa condição… não se deveria compartilhar ódio… porque isso não nos torna mais felizes, ao contrário, cria um comportamento de despreocupação, por determinar a naturalização do ódio…

… o desafio para quem trabalha com educação está posto… construir humanos melhores… a quem é pai e mãe recomendo ler as tragédias gregas, para que possa construir valores e educar seus filhos para a convivência humanizada… é esse o paradigma do futuro… desconstruir o holocausto do cotidiano… tarefa que exige ressignificar o tempo perdido em grupos de whatsapp e nas redes sociais… desnaturalizar a morte matada é o que temos para o almoço do inconsciente… boa semana a todos…

( [email protected] )

 

 

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