Painel de Degustação: Grandes Borgonhas tintos da excelente safra 2009!

  • Luiz Cola
  • 02/mar/2018
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Os vinhos elaborados na Borgonha em 2009, assim como a recém-chegada safra de 2015, tiveram sua excepcional qualidade cantada em “verso e prosa” pela crítica especializada (ainda que alguns apreciadores mais exigentes e puristas a tivessem considerado “quente” demais). Dentro dos domínios da Côte d’Or, que compreende as melhores apelações da região, os vinhos foram concebidos a partir de uvas bastante sadias e perfeitamente maduras, ainda que isso possa ter comprometido um pouco seu teor de acidez.

Essa questão da acidez é um elemento chave para uma boa guarda desses vinhos na Borgonha, especialmente no que diz respeito aos brancos. No caso dos tintos. essa configuração de safra não chega a ser tão problemática no quesito guarda, devido a presença dos taninos. Nessas condições, eles agradam especialmente os que valorizam o caráter mais frutado e maduro nesses vinhos. Esse paradigma, no que diz respeito à maturação das uvas na safra 2009, causou (e ainda causa) um certo ponto de interrogação entre especialistas e apreciadores.

As lindas cores geradas pela Pinot Noir na safra 2009 na Borgonha…

Para ver a quantas anda o estágio de evolução desses vinhos, reuni um conjunto de seis excelentes tintos de produtores renomados da Côte d’Or (três da Côte de Nuits e três da Côte de Beaune), num painel de degustação aberto (ou seja, a prova não foi às cegas). Os seis vinhos tinham em comum apenas a casta (Pinot Noir) e a safra (2009), no mais, vieram de apelações e produtores completamente distintos.

O resultado, a meu ver, ofereceu argumentos para dar um pouco de razão para cada uma das duas vertentes mencionadas na avaliação dessa safra: alguns vinhos realmente pareceram carecer de maior acidez, mas outros, que poderiam estar magros demais em safras mais “frias”, estão ótimos para beber dentro dessa primeira década de evolução na garrafa.

Seguem minhas impressões sobre cada um dos vinhos degustados (dentro de uma ordem estimada de corpo, do mais leve para o mais encorpado):

Simon Bize Savigny-les-Beaune 1er Cru Les Fornaux 2009 (Côte de Beaune)

Esse primeiro vinho degustado da Côte de Beaune mostrou de cara como a safra lhe foi benéfica. Normalmente ele seria um pouco mais magro e menos expressivo, mas ganhou ótimo equilíbrio com uvas mais maduras e concentradas. Uma boa surpresa logo de cara, trazendo um aporte de fruta madura balanceada por uma acidez bastante refrescante. Pronto para beber, não creio que evolua muito mais.

Domaine Comte Georges de Vogue Chambolle-Musigny 2009 (Côte de Nuits)

O único vinho da categoria villages fez um belíssimo papel nesse painel (ainda que eu seja suspeito quando o assunto é Chambolle-Musigny). De cara já demonstrou que brigaria para ser o melhor do grupo. Acidez perfeita, com uma fruta limpa e a elegância do conjunto que é a marca registrada dessa apelação. Delicioso! Não há melhor descrição para ele. Esse villages está no auge, quem o tiver, sugiro abrir e beber. Talvez a versão Premier Cru possa melhorar com algum tempo a mais de guarda.

Domaine Ponsot Morey-Saint-Denis 1er Cru Cuvée des Alouettes 2009 (Côte de Nuits)

Mais um excelente exemplar da Côte de Nuits. Brigou de perto com o Chambolle-Musigny pelo posto de melhor da noite, talvez por ser o primeiro a contradizer a percepção dos dois vinhos anteriores: não estava pronto! Ele pareceu bem mais jovem e fechado que os anteriores, mas transpareceu uma estrutura tânica soberba. Acredito que vai melhorar muito com os anos de guarda. Notadamente, os vinhos de Ponsot tem vocação para maratonistas.

Domaine des Comtes Lafon Volnay Santenots-du-Milieu 1er Cru 2009 (Côte de Beaune)

Esse Volnay foi o primeiro a corroborar os receios daqueles que consideraram a safra 2009 mais quente que o desejável. O vinho, num sentido mais amplo, estava ótimo, mas demonstrou como uma fruta madura demais pode deixar o vinho com um paladar atípico, macio demais, semelhante ao de regiões vinícolas historicamente mais quentes que a Borgonha. Para beber o quanto antes!

Domaine Méo-Camuzet Vosne-Romanée 1er cru Les Chaumes 2009 (Côte de Nuits)

Esse Vosne-Romanée, frequentemente espetacular, parece ter sofrido os mesmos efeitos da uva amadurecida demais do vinho anterior. Devem ter sido colhidas tarde demais… Um vinho com um traço “moderno” demais para um pinot noir da Borgonha, com exuberância de fruta, alguma madeira aparente e o de menor acidez aparente de todo o painel. Pode ser que o tempo de guarda consiga realinhá-lo, mas não tenho muita fé nisso.

Domaine de Montille Corton Clos do Roi Grand Cru 2009 (Côte de Beaune)

O único Grand Cru do painel, feito pelas mãos habilidosas e rigorosas dos Montille, ficou no meio-termo observado nos vinhos anteriores. Pareceu exalar uma certa dose de acidez volátil (que desapareceu depois de algum tempo) e traços de uma fruta vermelha bastante madura. Curiosamente, isso não se traduziu no paladar, ali estava o frescor e a pujança dos taninos devidamente equilibrados. Por conta de seu vigor, merece contar com mais alguns anos de guarda para atingir todo o seu potencial. Gostaria de prová-lo novamente em algum momento nos próximos 5 a 10 anos.

Enfim, a seu modo, cada um dos vinhos ofereceu grande qualidade e prazer. O painel deixou nítido que a safra trouxe desafios aos produtores, particularmente para quem não soube o momento certo de colher as uvas (ou preferiu colhê-las mais maduras que o habitual). No final das contas, parece que a lógica da Borgonha prevaleceu acima de tudo: cada terroir e a interpretação dele por seus produtores, faz a verdadeira diferença! Para o consumidor, fica a escolha de qual caminho deseja seguir…

Santé!!!

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