Painel de Degustação: Premier Grand Cru Classé (Lafite, Mouton, Latour, Margaux e Haut-Brion) + Château d’Yquem!

  • Luiz Cola
  • 22/abr/2018
  • 4 Comentários

Elaborada em virtude da realização da Exposição Universal de Paris de 1855, a classificação dos vinhos de Bordeaux (que inclui, além dos tintos do Médoc, os vinhos brancos doces de Sauternes e Barsac) ofereceu pela primeira vez uma referência mundial sobre a qualidade dos vinhos da região. Ainda que mais de 160 anos tenham se passado desde a elaboração dessa lista, ela ainda é o principal referencial utilizado para conferir status e preço para a maioria dos vinhos (62 tintos e 27 brancos de sobremesa) presentes nela.

Como diriam os franceses, o crème de la crème dessa classificação de 1855 são os cinco vinhos Premier Cru Classé (Châteaux Lafite-Rothschild, Mouton-Rothschild, Latour, Margaux e Haut-Brion) e o Premier Cru Supérieur de Sauternes (Château d’Yquem). Esse painel de degustação especial reuniu algumas garrafas de ótimas safras desses vinhos que começam a entrar em seu apogeu, sobretudo 1989 e 1996, para avaliar essa evolução no momento atual.

Os vinhos degustados foram: Château Haut-Brion 1996, Château Latour 1989, Château Margaux 1999, Château Mouton-Rothschild 1996, Château Lafite Rothschild 1998 e, para finalizar, o célebre Sauternes Château d’Yquem 1996. Vamos às impressões sobre cada um deles:

Château Haut-Brion 1996 – Pessac-Léognan – RP92/WS93: 50% Merlot, 39% Cabernet Sauvignon e 11% Cabernet Franc.

Esse jovem de 22 anos exibiu a típica coloração rubi profunda dos grandes Bordeaux nessa fase da vida. Iniciou com aromas um pouco contidos, mas que foram se expressando melhor com mais tempo na taça, oferecendo notas de tabaco, ervas finas, defumados e piche. Paladar muito equilibrado e sedoso, que começa a demonstrar complexidade num corpo “elegantemente” robusto e austero. Sempre um de meus prediletos, esse não fugiu a regra. Deve alcançar o ápice entre 5 e 10 anos mais.

Château Latour 1989 – Pauillac – RP89/WS94: 77% Cabernet Sauvignon, 18% Merlot, 4% Cabernet Franc e 1% Petit Verdot.

O mais maduro entre os presentes, esse Latour nasceu da safra mais precoce no château desde 1893, gerando um vinho muito denso, com aromas intensos e exóticos de tabaco, terra úmida, couro e cedro. Beirando três décadas de evolução, parece ter chegado ao ápice, mas com um caráter bastante mais sério e austero que em outras safras de qualidade.

Château Margaux – Margaux – RP95/WS93: 60% Cabernet Sauvignon, 35% Merlot, 3% Petit Verdot e 2% Cabernet Franc.

O mais jovem do fruto expressou sua pouca idade com aromas dominado por ameixas secas e um amplo leque de notas de frutas vermelhas frescas e madeiras exóticas (sândalo). Oriundo de uma safra mais complicada que os demais, exibiu um corpo bem menos denso, com perfil mais delicado e pronto para beber. O equilíbrio do conjunto ofereceu ótimas sensações e encantou no final de boca. Ainda que não tenha sido o mais vibrante do painel, foi a melhor surpresa da prova!

Château Mouton-Rothschild 1996 – Pauillac – RP94/WS94: 72% de Cabernet Sauvignon, 20% Merlot e 8% de Cabernet Franc.

O Mouton-Rothschild costuma ser o que menos me encanta entre os Premiers Crus do Médoc, mas reconheço que esse 1996 me agradou bastante. Aromas bem vivos de groselha, café expresso e couro se sobressaíram. No paladar, apareceu um vinho incrivelmente maduro para sua idade, com boa concentração e equilíbrio. Esse fez jus à luta do Barão Philippe de Rothschild para elevá-lo ao posto que passou a ocupar desde 1973. Deve permanecer no apogeu por uns 15 anos mais.

Château Lafite-Rothschild 1998 – Pauillac – RP98/WS95: 81% Cabernet Sauvignon e 19% Merlot.

O mais “Cabernet” dos Premiers Crus sempre se destaca pela virilidade e opulência da fruta perfeitamente amadurecida. Apesar de 1998 não ser uma safra tão badalada pela qualidade, no Lafite ela beirou a perfeição. O nariz espetacular de frutas secas, couro e grafite dominou a taça. Com seus taninos levemente doces, equilibrados pela fina acidez, esse 1998 mostrou bem a razão dele ser o mais valorizado e procurado entre os cinco grandes de Bordeaux. Com muita estrada pela frente, só deve atingir o pico dentro de 20 anos ou mais.

Château d’Yquem 1996 – Sauternes – RP95/WS96: 90% Semillon, 5% Sauvignon Blanc e 5% Muscadelle (42 meses em barricas novas de carvalho francês + 5 anos em garrafas).

Não poderíamos encerrar esse painel sem degustar o maior clássico dentre os vinhos de sobremesa de Sauternes: o Yquem! Esse “bebê” tem muitas dezenas de anos para evoluir ainda, mas foi capaz de proporcionar grande prazer ainda na infância. Apresentou a típica coloração ouro claro desse estágio de vida, com um nariz intenso de frutas cítricas confitadas (pêssego, marmelos), baunilha, mel e castanhas. Seu paladar dotado de muita energia, equilibrou-se perfeitamente em termos de peso, textura e rica acidez (a garantida de uma longevidade secular). Não há como negar que ele tem predicados para ficar muito melhor do que está no presente, mas nem sempre a paciência é uma virtude que sustentamos em todos os momentos. A sua maturidade só deve começar a partir de 2026 e se estender por quase um século.

Confesso que andava meio sem entusiasmo com os vinhos das safras recentes de Bordeaux, cada vez mais lineares e sem um caráter definido. Vinhos impregnados de uma “modernidade” que ignora suas origens, quando era conhecido como clarete, e que não parecem ser capazes de proporcionar bons resultados no longo prazo. Mas, no fim das contas, pelos menos diante dessas safras dos final do século XX, tenho de reconhecer que beber esses vinhos, juntos ou separados, sempre é um grande prazer e privilégio!

Santé!!!

Publicidade

4 COMENTÁRIOS

  • ILAN - 23 de abril de 2018 às 22:30

    Olá Luiz,
    Tudo bem ?

    Parabéns pelo blog, tenho aprendido muito lendo seus artigos.

    Vinhos com denominações como : Margaux e Rotchild, no caso são produtores ou áreas específicas em Bordeux?

    Fui em uma loja no RJ para comprar vinhos de Bordeux observei aqui existia vinhos com nomes Rotchild e Margaux desde 300,00 até 15.000.

    Poderia me esclarecer esta questão?

    Alguma outra sugestão de Bordeux com preços mais acessíveis com a qualidade tão boa quanto os citados no artigo acima em torno de R$ 800,00 ?

    Abraços

    • Luiz Cola

      Luiz Cola - 24 de abril de 2018 às 11:03

      Caro Ilan,
      A sua dúvida é bastante comum entre aqueles que não estão habituados com a região de Bordeaux. Vamos lá: Margaux é uma apelação de origem do Médoc (região de Bordeaux à esquerda do rio Gironde), mas também é nome do châteaux (vinícola) mais famoso da apelação, o Château Margaux. Quando ler em algum rótulo a expressão “Margaux”, significa que o vinho veio da apelação de mesmo nome. A qualidade vai depender do produtor e da linha do vinho, onde o topo seria o Châtea Margaux.
      No caso do termo “Rothschild”, ele está associado a dois 1ers grands crus classés (Château Lafite-Rothschild e Mouton-Rothschild) e a outros châteaux de Bordeaux como o Duhart-Milon Rothschild, por conta de pertencerem a rica família de mesmo nome. Existem também outros vinhos associado ao nome, produzidos com as marcas Domaines Barons de Rothschild e Baron Philippe de Rothschild, muitos deles fora de Bordeaux e espalhados por várias partes do mundo.
      Parece complicado, mas não é. Observe antes de tudo a região de onde vem o vinho, depois fique atento ao produtor e a safra, especialmente em vinhos europeus.
      Abs,
      Luiz Cola

  • João Leite Ferreira Neto - 7 de outubro de 2018 às 17:46

    Prezado Luiz,
    Seu site é muito bom.
    Tenho um Chateau Margaux de 2008. Quando tempo devo esperar para abri-lo? E o Pavillion /rouge 2009? Tentei buscar informações via google, sem sucesso.
    Grato,
    João Leite

    • Luiz Cola

      Luiz Cola - 14 de outubro de 2018 às 21:48

      Olá João,
      Obrigado!
      Desculpe pela demora em responder, eu estava viajando…
      Tanto o Chateau Margaux quanto o Pavillon Rouge podem ser consumidos a partir dos 10 a 15 anos de guarda, mas somente irão entregar todo seu potencial após uns 20 anos de evolução. Se não quiser esperar tanto, pode abrir logo o Pavillon Rouge, segundo vinho do Château Margaux, mas aconselho a ser paciente com o outro. Não abra antes de 2023!
      Abs,
      Luiz Cola

DEIXE AQUI SEU COMENTÁRIO