Atelier Tormentas: vertical histórica reúne os 11 Pinots Noirs elaborados entre 2009 e 2016!

  • Luiz Cola
  • 16/maio/2018
  • 3 Comentários

Conheci o trabalho do vinhateiro Marco Danielle e seu Atelier Tormentas em meados da década passada, quando ele ainda estava numa fase embrionária e experimental. Mas desde aquele momento seus vinhos já me causaram ótima impressão, tanto pela qualidade, quanto pelo estilo elegante e de mínima intervenção, elaborados com uvas selecionadas de diversos vinhedos no sul do Brasil.

Passados pouco mais de 15 anos da fundação do Atelier Tormentas, o trabalho autoral de Marco Danielle continua em franca evolução, sem receios de buscar métodos de vinificação que valorizem a qualidade e tipicidade das uvas que ele “garimpa” a cada safra. O resultado desse empenho está impresso nos cerca de 30 vinhos (talvez o termo francês cuvées fosse mais apropriado) lançados desde seu primogênito Tormentas 2002 (veja um pouco mais sobre os primeiros vinhos do Atelier nesse link).

Ao longo desses anos, tive a oportunidade de degustar praticamente todos os vinhos tintos e boa parte dos brancos lançados pelo atelier e, na minha opinião, os tintos baseados na Cabernet Franc e na Pinot Noir foram os que mais se destacaram. Com a Cabernet Franc, foram lançados vinhos apenas nas safras 2008, 2010 e 2015, mas com a Pinot Noir, foram nada menos que 11 cuvées diferentes elaboradas entre 2009 e 2016!

Assim como eu, Marco Danielle é um fanático pelas deliciosas e complexas nuances proporcionadas pela Pinot Noir, sobretudo na Borgonha. Durante toda a existência do Atelier Tormentas, ele tem se empenhando para elaborar o melhor Pinot Noir que a matéria-prima dos vinhedos brasileiros possa oferecer.

O intuito principal dessa degustação vertical realizada com todos os 11 Pinots Noirs elaborados até hoje pelo atelier (as duas novas cuvées de 2017 ainda estão nas barricas) foi avaliar como se deu a evolução de cada um deles e, ao mesmo tempo, analisar a trajetória e as escolhas de Marco Danielle na elaboração desses vinhos. De antemão, posso assegurar que foi uma grande satisfação guardar essas garrafas na adega (em sua maioria, esgotadas) durante tanto tempo para atestar o excelente desempenho delas nessa prova.

Atelier Tormentas Fulvia Pinot Noir 2009: uvas oriundas de Encruzilhada do Sul – Teor alcoólico: 12,14% (990 garrafas produzidas)

Marco Danielle elaborou esse pioneiro Pinot Noir com tamanho carinho e esmero que o batizou com o mesmo nome de sua filha: Fulvia. Seguindo seus melhores instintos, ele elaborou esse 2009 com um contato mínimo com a madeira, passando apenas 2/7 do vinho por barrica francesa. Do alto de seus quase 10 anos, o vinho sustentou um ótimo frescor e uma delicadeza de fruta que sempre me encantou nas outras ocasiões que o bebi. Um belíssimo começo para quem lidou com uma casta tão temperamental quanto a Pinot Noir.

Atelier Tormentas Fulvia Pinot Noir 2011: uvas oriundas de Encruzilhada do Sul – Teor alcoólico: 12,00% (1.600 garrafas produzidas)

Oriundo mesmo vinhedo que o 2009, o Fulvia 2011 parece ter se beneficiado da qualidade excepcional da safra. Se até alguns anos atrás eu o considerava um pouco aquém ao 2009, devo reconhecer que ele estava soberbo nessa degustação e ligeiramente acima de seu antecessor. Cheio de uma fruta bem limpa e viva, provavelmente mais exuberante que o 2009 por conta do método de vinificação adotado (fermentação semi-carbônica), e uma elegância no paladar que o tornava muito fácil de beber. Adorável!

Atelier Tormentas Fulvia Pinot Noir 2012: uvas oriundas de Encruzilhada do Sul – Teor alcoólico: 13,30% (2.200 garrafas produzidas)

O Fulvia 2012 foi o penúltimo vinho produzido a partir dos vinhedos de Encruzilhada do Sul. Graças a uma safra mais quente e seca, além do fato de ter sido amadurecido durante 12 meses em barricas francesas, esse PN exibiu uma fruta bem mais madura que os anteriores, trazendo um perfil mais “convencional” ao vinho, com menos arestas no paladar e um final de boca mais sedoso. Ainda que seja menos fresco que os outros, ele mostrou que tem lá o seu charme.

Atelier Tormentas Serena Pinot Noir 2013: uvas oriundas de Nova Pádua (Serra Gaúcha) – Teor alcoólico: 12,13% (673 garrafas produzidas)

O Serena 2013 é um dos três “ensaios experimentais” com Pinots de outras áreas da Serra Gaúcha, uma tentativa de Marco Danielle para traduzir a noção de terroir de cada uma delas. No caso desse Serena, feito a partir de uvas de cultivo biodinâmico trabalhadas por Maurício Ribeiro (que hoje nos brinda com seus adoráveis Serenas), o vinho foi amadurecido por 16 meses em barricas francesas, exibindo um conjunto sensorial mais afável ao paladar. Como os outros 2013 degustados a seguir, notei que ele não manteve a mesma expressão aromática que tanto me encantou nas primeiras vezes em que o provei.

Atelier Tormentas Fulvia Pinot Noir 2013: uvas oriundas de Encruzilhada do Sul – Teor alcoólico: 12,95% (1.030 garrafas produzidas)

Amadurecido em barricas francesas (12 meses) por menos tempo que o Serena, o Fulvia 2013 exibiu ótima estrutura e notas de frutas maduras, reiterando o perfil mais cheio e opulento da safra, com menos frescor e mais corpo. Honrou a “camisa” dos Fulvias, mas ficou nitidamente menos refinado que seus antecessores. Provavelmente, degustado sozinho, acredito que ele causasse maior impacto sensorial.

Atelier Tormentas Monte Alegre dos Campos Pinot Noir 2013: uvas oriundas de Monte Alegre dos Campos – Teor alcoólico: 12,95% (664 garrafas produzidas)

Esse parece ter sido o “ensaio experimental” que mais agradou ao Marco Danielle, já que é o único que teve continuidade ao lado do Fulvia. Amadurecido por 12 meses em barricas francesas (e americanas), ele me chamou muito pouco a atenção. Talvez tenha sido o vinho mais “apagado” de todo o painel. Um vinho sem defeitos, que fique claro, mas sem causar maiores emoções.

Atelier Tormentas Piratini Pinot Noir 2013: uvas oriundas de Piratini (RS) – Teor alcoólico: 13,28%    (536 garrafas produzidas)

Assim como o Monte Alegre, o Piratini também foi amadurecido por 12 meses em barricas francesas e americanas. Proveniente de uma região limítrofe, no extremo sul do Brasil, o Piratini sempre conviveu com uma certa “implicância” do Marco Danielle, mas com uma legião de admiradores entre seus clientes. Eu mesmo comprei uma boa leva para beber no dia a dia, ciente de seu caráter franco e amigável ao paladar. Isso posto, reconheço que ele já não apresentava mais a mesma energia de antes. Continua muito agradável, mas sem aquele “nervo” (termo que o Marco tanto gosta de usar) de outrora.

Atelier Tormentas Monte Alegre Pinot Noir 2015: uvas oriundas de Campos de Cima da Serra – Teor alcoólico: 11,40% (1.970 garrafas de 750 ml e 50 magnums produzidas)

Esse provavelmente é o vinho mais “vivo e alegre” já elaborado pelo Atelier Tormentas. Aromas que mesclam notas de bosque e muita fruta fresca, com acidez e “nervo” aos borbotões. A aposta do Marco Danielle nesse vinho se mostrou muito bem feita. Belo vinho!

Atelier Tormentas Fulvia Pinot Noir 2015: uvas oriundas da Campanha Gaúcha (RS) – Teor alcoólico: 12,50% (2.987 garrafas de 750 ml e 56 magnums produzidas)

Elaborado com uvas da promissora Campanha Gaúcha, o Fulvia ressurge em 2015 com muita fruta e vigor. Como foi um dos primeiros a ser degustados na prova, encontrou nossos palatos ansiosos pelo frescor que ele tinha para oferecer. Lindo conjunto! Uma belezura ainda disponível no atelier…

Atelier Tormentas Monte Alegre Pinot Noir 2016: uvas oriundas de Campos de Cima da Serra – Teor alcoólico: 11,50% (menos de 1.000 garrafas produzidas)

Segundo Marco Danielle, o Monte Alegre 2016 é mais austero que os anteriores (2013 e 2015), demandando mais tempo de guarda antes de sua apreciação. Concordo com essa observação, mas a garrafa que degustamos já estava uma delícia para beber já. Entendo que isso deve ficar a critério do momento e da preferência de quem o beber. Nesses casos, o melhor a fazer é abrir uma garrafa a cada 6 meses e ir apreciando seu desempenho e evolução.

Atelier Tormentas Rosa Evanescente Pinot Noir 2016: uvas oriundas de Campos de Cima da Serra – Teor alcoólico: 12,20% (280 garrafas produzidas)

O Rosa Evanescente Pinot Noir 2016 é uma espécie de derivação do Monte Alegre, um vinho de tiragem única que ficou sob os cuidados de sua companheira e enóloga Vanessa Kohlrausch Medin, que buscava elaborar um vinho puro e minimalista a zero SO2.

Para aqueles que não estiverem com disposição de ler a narrativa abaixo, feita pelo próprio Marco Danielle sobre o vinho, só posso adiantar que esse é um daqueles casos em que o acaso ou o alinhamento perfeito e improvável de inúmeros fatores, gerou um vinho único! Sorte de quem puder prová-lo ainda…

“Vanessa cuidou desta única barrica do Rosa Evanescente como quem embala um bebê, entusiasmou-se, vibrou a cada prova durante a gestação do vinho, e toda essa expectativa agora emana da taça, num misto de sorriso e lágrima, como ocorre com a rosa que evanesce e transforma seu perfume em algo novo. A vida, o amor, o vinho natural, são sopros divinos em constante mutação, frágeis como o sussurro da terra. Ainda em barrica, esse pinot comunicava uma miríade de sensações emocionantes. Quando ela o transvasou e engarrafou com as próprias mãos, o impulso de enóloga pressentiu a necessidade de uma pequena dose de SO2 “à la mise” (pré-engarrafamento) – como faz a maioria dos produtores naturais da Europa. Apesar da fragilidade daquele lote, sugeri que resistisse e deixasse o vinho desprotegido, assim seria um rótulo a zero SO2 adicionado em todas as etapas de elaboração, dignificando seus primeiros passos de vinhateira natural. Como imaginava-se que poderia acontecer, houve uma certa perda de vibração, um certo emudecimento de algumas das nuances florais e cítricas iniciais que às vezes ocorre durante o engarrafamento desprotegido de vinhos mais delicados. A sulfitagem serve para “congelar” essas notas, para protegê-las da oxidação. O vinho então “desmaiou” qual rosa evanescente, sem perder, contudo, uma boa dose de encanto. Fiquei inconsolável, senti-me culpado por ter interferido em um resultado que não era projeto meu. Suprimir o uso de SO2 para manter o purismo de uma vinificação natural implica uma certa estrutura fenólica. Quanto mais potente a casta, mais inútil usar SO2. Ambos vivemos um certo amargor ao pensar na diminuição da complexidade inicial, e por um tempo tentei dissuadí-la da idéia de lançar esse lote, afinal, tratava-se de sua estréia no mundo dos vinhos de autor com um sério desafio: um Pinot Noir feito no Atelier.

Passaram-se alguns meses sem que tivéssemos o entusiasmo de provar essas garrafas novamente. Até que, certo dia, decidi abrir uma e a surpresa foi grande. Como ocorre com os vinhos vivos, uma verdadeira metamorfose acontecera no interior das garrafas. O vinho se transformara numa das experiências mais sutis já entregues pelo Atelier, em termos de Pinot Noir. Alí estava de volta boa pate da vibração, da nota floral e do nervo que pareciam ter evanescido durante o engarrafamento a zero SO2. Mas as notas florais, modificadas, agora remetiam ao poético descritor que os franceses definem por “rose fanée” – a rosa evanescente.

Como no amor, como na vida, a rosa evanescente convida a pensar sobre a finitude das coisas. Nada é eterno, poucas são as felicidades longevas. O prazer é um breve hiato de tempo entre o prelúdio e a evanescência, portanto devemos vivê-lo já, em toda sua plenitude, pois amanhã pode ser tarde. O melhor lugar para guardar uma garrafa especial é a memória, como digo sempre. É um erro pensar que um vinho, para ser grandioso, deva necessariamente ser de guarda. Assim como é um erro acreditar que o amor, para ser eterno, deva durar mais que um momento. Pensemos mais na complexidade e menos na potência ou na longevidade! Isso vale para quase tudo na vida! O Rosa Evanescente poderá atravessar alguns anos em plena forma, para quem aprecia os efeitos do tempo. Mas digo que o melhor momento para apreciá-lo é agora. E é esse gosto ambíguo, entre o sorriso e a lágrima, entre o eterno e o efêmero, que a “rose fanée” convida a descobrir, já que o momento que não tem preço, o momento de sentir a vida em toda sua plenitude, é exatamente aqui, e agora.” (Marco Danielle)

Acho que não me resta dizer mais nada, salvo que foi uma das degustações verticais mais despretensiosas e inesquecíveis que já pude realizar… Santé!!!

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3 COMENTÁRIOS

  • Marco Danielle - 16 de maio de 2018 às 09:28

    Muito obrigado, Luíz, não apenas pelo trabalho envolvido na construção deste texto, mas pelo altruísmo do gesto de guardar garrafas hoje raras para compartilhar com amigos tantos anos depois, com fins didáticos – enquanto poderias tê-las desfrutado sozinho. Grato antes de tudo pela amizade e admiração recíproca que vem norteando nossa relação desde o primeiro contato.

  • Álvaro Cézar Galvão - 17 de maio de 2018 às 09:08

    Oi Luiz, assim como vc, conheci o Marco e sempre o tive em conta como um grande experimentador de sensações, inclusive na fotografia. Parabéns pelo trabalho e ao Marco pelos vinhos

    • Luiz Cola

      Luiz Cola - 17 de maio de 2018 às 09:59

      Valeu Álvaro! Temos de nos orgulhar de vinhos nacionais como os que o Atelier Tormentas produz… Santé!

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