Painel de Degustação: Marqués de Murrieta Castillo Ygay Reserva Especial 1964-2005!

  • Luiz Cola
  • 16/jun/2018
  • 1 Comentário

A Bodegas Marqués de Murrieta foi fundada por Luciano de Murrieta e Garcia-Lemoine nos arredores da cidade de Logroño em 1852. Ela foi a primeira vinícola da Rioja a conseguir exportar seus vinhos, um feito para uma época em que os vinhos espanhóis não gozavam ainda de grande reputação internacional.

Bodegas Marqués de Murrieta

O Castillo Ygay Reserva Especial surgiu muitas décadas depois, mas desde seu lançamento, ele representa o que há melhor na Marqués de Murrieta. A história desse raro vinho espanhol já ultrapassou a marca do primeiro século, já que sua primeira edição remonta a safra de 1917. Desde então, ele só foi elaborado outras 24 vezes (1925, 1934, 1942, 1944, 1952, 1959, 1964, 1968, 1970, 1975, 1978, 1985, 1987, 1989, 1991, 1994, 1995, 1998, 2000, 2001, 2004, 2005, 2007 e 2009), ainda que nos últimos anos seu lançamento tenha se tornado mais frequente e regular, desde que Vincente Cabrián, Conde de Creixel, comprou a vinícola em 1983.

A reputação desse vinho é tão grande que o Castillo Ygay Reserva Especial de 1925 foi o escolhido pelo Rei Juan Carlos I, que abdicou em 2014, para a cerimônia de transferência da coroa espanhola para seu filho, o atual Rei Felipe VI.

As primeiras edições desse vinho seguiam uma tradição de passar um longuíssimo tempo amadurecendo lentamente em grandes tonéis de carvalho. Esse processo foi se tornando economicamente inviável com o passar das últimas décadas e desde o final dos anos 1950 ele foi sendo gradativamente reduzido. Imagine que o prestigiado Reserva Especial de 1925 permaneceu nada menos de 32 anos em tonéis de carvalho, enquanto a primeira edição de 1917 passou por incríveis 45 anos de amadurecimento em cascos antes de ser engarrafado.

Outro importante aspecto do vinho que foi sofrendo pequenas alterações ao longo de sua existência, diz respeito a sua composição (um blend das castas típicas: Tempranillo, Garnacha, Mazuelo e Graciano), ampliando a participação da Tempranillo no blend, de cerca de 50% nas safras iniciais para mais de 80% nas edições mais recentes.

O reflexo dessas mudanças ficaram bastante nítidas nesse painel de degustação, que abrangeu cinco décadas do Castillo Ygay Reserva Especial com as edições de 1964, 1975, 1989, 1998 e 2005. Veja a seguir minhas impressões sobre cada um dos vinhos:

Castillo Ygay Gran Reserva Especial 1964 (60% Tempranillo, 30% Garnacha e 10% Mazuelo). Foram 23 anos, ou 276 meses, nos tonéis de carvalho antes de ser engarrafado. Passou mais cinco anos em repouso na adega antes de ser comercializado em 1998.

É incrível notar a capacidade de guarda desses vinhos! A cor, ainda muito viva, escura e brilhante, não dá a menor pista de sua idade real. Os ricos aromas terciários são a primeira indicação de sua longa trajetória antes de sua abertura. Notas complexas de couro, defumados, cedro, parafina e mais uma profusão de outras coisas fazem jus a grande safra que o originou. Na boca, o elegante vigor se equilibra adequadamente em sua notória acidez. Presença de boca muito duradoura e marcante. Um privilégio poder degustar esse magnífico vinho!

Castillo Ygay Gran Reserva Especial 1975 (76% Tempranillo, 11% Mazuelo, 9% Garnacha e 4% Graciano). Foram 102 meses de amadurecimento em tonéis até seu engarrafamento em 1984.

Confesso que imaginava que após degustar o Castillo Ygay 1964 eu já teria alcançado o máximo possível nesse painel, mas eis que veio esse 1975 para me levar a um patamar ainda mais alto. Na prática, todas as qualidades percebidas no 1964 foram sentidas aqui numa intensidade ainda mais superior. Um vinho em seu pleno apogeu!  Notas de couro úmido, tabaco, cedro e grafite em grande profusão. Paladar elegante, muito vívido e profundo. Irretocável!

Castillo Ygay Gran Reserva Especial 1989 (75% Tempranillo, 13% Mazuelo, 10% Garnacha e 2% Graciano). Passou 48 meses em barricas de carvalho americano e outros 36 meses de guarda nas garrafas antes de ser comercializado.

Mais um belo tinto evoluído, com notas terciárias típicas desse clássico riojano. No paladar, já se notam algumas distinções em comparação aos dois anteriores, mas nada que o desmereça. Um pouco mais “arrumado” que seus antecessores, mas preservando quase toda complexidade aromática e equilíbrio no paladar que tanto me encantam nesse vinhos. Muito agradável!

Castillo Ygay Gran Reserva Especial 1998 (85% Tempranillo, 13% Mazuelo e 2% Garnacha). Passou 41 meses em barricas de carvalho americano e outros 36 meses de guarda nas garrafas antes de ser comercializado.

Esse 1998 foi o mais discreto do painel. Ainda que ele sustentasse as mesmas características dos demais, se apresentou com muito menos expressão. O caráter “arrumado” que observei no 1989 estava ainda mais presente nesse daqui. Ao que parece, essa mudança de direção estilística pode ter sido tomada na busca de agradar o mercado. Se assim foi, me parece um equívoco. O vinho é muito bom, mas quando visto pela perspectiva dos mais antigos, perde muito de seu significado. Fica evidente uma certa falta de brilho e emoção, tão clara nos demais…

Castillo Ygay Gran Reserva Especial 2005 (89% Tempranillo e 11% Mazuelo). Passou 30 meses em barricas de 225 litros, sendo 10 meses em carvalho americano novo, e outros 36 meses nas garrafas.

Mais uma vez uma prova comparada mostrou como nossas impressões pode ser distorcidas quando não há um referencial. Bebi esse mesmo 2005 isoladamente uns dois meses antes desse painel e o considerei quase pronto e, à sua maneira, delicioso de beber. Porém, assim que trouxe a perspectiva da prova das safras mais antigas, me pareceu que estava bebendo outro vinho. Em vez de notar as características marcantes de seus antecessores, percebi que estava diante de um Rioja de estilo quase moderno, sem aquela verve rústica lentamente polida pelo tempo de seus irmãos mais velhos. Não deixei de apreciá-lo, mas fiquei triste de ver como já não o fazem mais como antigamente… Coisas do tempo e do vento!

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1 COMENTÁRIO

  • Ilan - 18 de junho de 2018 às 23:29

    Bela nota Luiz !

    Ao me ver os mais atuais não refletem os valores pedidos por cada exemplar …

    A qualidade se foi e ficou a marca …

    Sou fã do seu blog..

    Forte Abs

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