Painel de Degustação: Grands Crus 2007 e 2008 de Camille Giroud!

  • Luiz Cola
  • 10/jul/2018
  • 2 Comentários

Esse painel de degustação foi montado com o intuito de analisar duas questões bastante didáticas e relevantes numa região vinícola como a Borgonha: a variabilidade entre safras e as diferenças de estilo e caráter em apelações distintas. Nesse caso, todos os vinhos vieram do Domaine Camille Giroud, de três grands crus (Corton Le Clos du Roi, Clos de Vougeot e Charmes-Chambertin) elaborados nas safras vizinhas de 2007 e 2008.

O Domaine Camille Giroud está baseado em Beaune e elabora a maior parte de seus vinhos com uvas adquiridas de viticultores parceiros. Apesar disso, todos esses vinhedos procuram seguir a risca uma filosofia de cultivo com uso muito restrito de defensivos (lutte raisonnée). No processo de vinificação se preconiza o uso de leveduras indígenas e uma passagem moderada por carvalho novo (30% ou menos) no amadurecimento dos vinhos.

Servidos aos pares (2007 e 2008 de cada apelação), os vinhos conseguiram oferecer uma boa visão das diferenças que pretendíamos observar. O caráter mais “magro” e ácido da safra 2007, o perfil mais equilibrado e “arredondado” da safra 2008, além das sutis variantes de cada terroir.

A descrição de cada um dos vinhos denota melhor essas percepções, mesmo que tenha trazido algumas conclusões antagônicas durante a degustação. Veja um resumo da avaliação de cada um deles (e de como pode ser intricada a análise dos vinhos da Borgonha):

A imagem pode conter: bebida
Camille Giroud Corton Le Clos du Roi 2007

O típico traço terroso dessa apelação esteve bastante presente nesse Corton 2007, algo que costuma demandar uma guarda mais prolongada desses vinhos, mas graças ao perfil da safra, de corpo mais leve e acidez mais elevada, ele me pareceu extremamente agradável e equilbrado para beber já. Para minha agradável surpresa, foi um dos destaques desse painel.

A imagem pode conter: bebida
Camille Giroud Corton Le Clos du Roi 2008

Esse Corton 2008 se manteve dentro das mesmas características de seu irmão mais velho, mas corroborou aquela perspectiva de que ainda precisava evoluir mais. Mesmo oferecendo uma paleta aromática muito agradável, deixou claro que precisava refinar seus taninos naturalmente mais maduros e ligeiramente ásperos. Deve melhorar bastante em 5 ou 6 anos.

A imagem pode conter: bebida
Camille Giroud Clos de Vougeot 2007
A imagem pode conter: bebida
Camille Giroud Clos de Vougeot 2008

Nos Clos de Vougeot 2007 e 2008, elaborados com uvas de uma parcela bem a sudoeste desse extenso vinhedo Grand Cru, as impressões não foram tão boas quanto nos Cortons. Ambos pareceram meio apagados no nariz e pouco expressivos na boca. A maior acidez da safra 2007 não causou grande impacto no vinho e a fruta também não se destacou. No 2008, apesar de não encontrar nenhum defeito, havia muito pouco da graça que os vinhos de Clos de Vougeot costumam oferecer (mesmo diante da grande variação decorrente do número de produtores e parcelas distintas). Desse modo, os vinhos pouco contribuíram para a análise pretendida na degustação.

A imagem pode conter: bebida
Camille Giroud Charmes-Chambertin 2007
A imagem pode conter: bebida
Camille Giroud Charmes-Chambertin 2008

Se nos vinhos de Clos de Vougeot não foi possível extrair maiores conclusões, isso foi bem compensado pelos dois exemplares de Charmes-Chambertin. A elegância e o vigor, característicos desses vinhos, foram moldadas pelas duas safras de maneiras bem diferentes, mas ambas muito satisfatórias. Enquanto o vinho de 2007 ofereceu uma fruta mais limpa e levemente picante, refletindo o perfil esperado para a safra, o 2008 se destacou pela exuberância da fruta bem madura, dotando o vinho com uma finesse e complexidade bem mais evidentes.

Diante da expectativa de determinar nessa degustação qual safra ou apelação ofereceria melhor qualidade e/ou características de minha preferência, acabei diante de um certo impasse. Meus vinhos prediletos foram o Corton Le Clos du Roi 2007 e o Charmes-Chambertin 2008. Uma aparente indefinição entre safras e apelações, mas que eu acabei interpretando de outra forma: 2007 oferece mais frescor, menos complexidade e tempo de guarda; 2008 por sua vez foi capaz de gerar vinhos mais robustos (especialmente nesse nível Grand Cru) e complexos, que precisam de mais tempo para entregar a totalidade de seus atributos.

Em resumo, parece que tudo é uma questão de escolhas e preferências entre essas duas safras vizinhas, mas no que se refere as apelações, os vinhos de Charmes-Chambertin se destacaram em ambas as safras, os Cortons Clos du Roi foram uma ótima surpresa, deixando para os Clos de Vougeot um inegável ar de decepção.

Até a próxima! Santé!!!

Publicidade

2 COMENTÁRIOS

  • flavio - 10 de julho de 2018 às 15:04

    O problema é degustar um “cru”, pagar uma fábula na garrafa e… Nhé… Acho que toda classificação de vinhos, nessa “moda” não lançada, mas mais difundida por seguidores de Parker, deveria sempre ter uma parcela a atribuir de “custo benefício”. Seguramente nenhum cru francês receberia nota máxima, ainda que fantástico ao palato.

    • Luiz Cola

      Luiz Cola - 10 de julho de 2018 às 17:25

      Olá Flávio,
      Nos dias de hoje, boa parte dessas classificações perderam parte de seu sentido, mas no caso da Borgonha, salvo raras exceções, o terroir está melhor demarcado que em outras áreas (Bordeaux, por exemplo).
      É claro que nem todos os Grands Crus valem o que custam, mas isso depende de vários fatores de avaliação.
      O final do seu texto ficou um pouco confuso, mas creio que tenha pretendido dizer que vinhos de bom custo x benefício sempre devem ser mais considerados. Se é isso, saiba que eles existem, mas para achá-los é preciso saber onde buscar, algo nem sempre tão fácil por aqui. Enfim, eu compartilho a maior parte dos vinhos que degusto justamente com esse propósito: facilitar a busca de outros enófilos por boas garrafas que não quebrem o nosso bolso.
      Abs,
      Luiz Cola

DEIXE AQUI SEU COMENTÁRIO