Volta ao mundo através do vinho: Mendoza, a capital argentina da bebida!

  • Luiz Cola
  • 08/ago/2018
  • 5 Comentários

Eis aqui um dos destinos no exterior mais procurados pelos brasileiros que desejam conhecer mais de perto a cultura vitivinícola. Localizada na parcela centro-oeste da Argentina, a cidade de Mendoza é o “epicentro” da produção de vinhos no país.

Os 18 departamentos situados no entorno de Mendoza abrigam mais de 1500 vinícolas, concentrando cerca de 70% de todo vinho “Made in Argentina”. Tamanha concentração de vinícolas e vinhedos favorece bastante a atividade enoturística na região, transformando-a num verdadeiro paraíso para os enófilos de todas as partes do mundo.

Considerando que toda essa região é um deserto situado a mais de 700 metros acima do nível do mar, é quase um milagre que exista por lá tamanha fartura de vinhas. A razão desse “milagre” é o engenhoso aproveitamento das águas do degelo dos Andes, que além de irrigar mais de 150.000 hectares de vinhedos, abastece a região de Mendoza e o imenso parque da cidade.

Antigo vinhedo de Malbec plantado em 1948

A produção de vinhos é bastante antiga na região de Mendoza, destinada inicialmente para atender a demanda da população, sobretudo os colonizadores e imigrantes oriundos de várias partes da Europa, que chegaram na Argentina ao longo dos séculos passados.

Foi apenas no início dos anos 1990, quando os frutados e potentes tintos baseados na casta Malbec caíram nas graças do mercado internacional, que a vitivinicultura local explodiu de vez. Vultuosos investimentos europeus e americanos chegaram na região, modernizando e impulsionando os vinhos argentinos pelo mundo afora.

Apesar de boa parte das melhores vinícolas estarem relativamente próximas da cidade de Mendoza, em Maipú e Luján de Cuyo (menos de uma hora de carro), é importante planejar bem as visitas, setorizando o roteiro com ajuda de um mapa das vinícolas (todo hotel tem um). Apenas as modernas vinícolas do Valle de Uco, situadas a cerca de 100 km da cidade, vão demandar uma viagem um pouco mais longa, mas que merecem o tempo despendido.

Bus Vitivinícola

Para aqueles que não desejarem alugar um carro ou contratar um motorista local (remis), existe uma forma muito divertida e tranquila de fazer os passeios: o “Bus Vitivinícola”. Esse ônibus especializado nas rotas vinícolas, passa pelos principais hotéis da cidade e percorre os caminhos do vinho de Luján de Cuyo, Maipú e Valle de Uco. Para maiores detalhes, acesse o site do Bus Vitivinícola.

Diante da infinidade de escolhas, sugiro a seguir algumas de minhas bodegas preferidas, seja pela qualidade dos vinhos elaborados, seja pela qualidade da recepção enoturística (muitas delas tem ótimos restaurantes):

Bodegas López (Maipú): bem próxima da cidade, essa tradicional vinícola tem um ótimo restaurante e uma grande oferta de vinhos de safras antigas, especialmente de dois de meus preferidos, o Montchenot e o Château Vieux. Não deixe de prová-los!

Família Zuccardi (Maipú): o tratamento enoturístico da Zuccardi é excepcional, merecendo ser complementado por um almoço harmonizado no meio dos vinhedos com os vinhos e azeites produzido por lá. A oferta de vinhos é ampla e cabe em todos os bolsos.

Bodega Catena Zapata (Luján de Cuyo): uma das mais conhecidas e belas vinícolas de Mendoza cuja qualidade dos vinhos é inquestionável. Infelizmente, devido ao fluxo intenso de visitantes, o passeio é meio padronizado e impessoal, mas isso não deve desanimar o visitante. O lugar é muito interessante e beber um Nicolas Catena direto na fonte tem seu lugar.

Detalhe da Bodega Catena Zapata

Vinícola Carmelo Patti (Luján de Cuyo): nessa pequena bodega artesanal acontece o oposto da badalada Catena Zapata. Com sorte, o próprio enólogo irá recebê-lo e apresentar seus vinhos. Um privilégio que merece ser aproveitado com uma taça de seu Cabernet Sauvignon, um dos melhores vinhos feitos por Carmelo Patti.

Bodega El Enemigo (Luján de Cuyo): o enólogo Alejandro Vigil vem obtendo grande sucesso nesse projeto pessoal, especialmente após alguns de seus vinhos terem obtido notas elevadas na crítica internacional, e um deles, o Cabernet Franc Single Vineyard 2013 alcançou os cobiçados 100 pontos. Para provar esse e todos os demais vinhos da casa, sugiro marcar um almoço no restaurante da bodega.

Bodega Otaviano (Luján de Cuyo): essa vinícola é particularmente especial para todos nós do Espírito Santo, afinal de contas ela contém nosso “DNA” em seus vinhos. O capixaba Euclides Penedo Borges é o responsável pela elaboração dos vinhos (e também empresta seu sobrenome aos rótulos). O Penedo Borges Icono é o maior destaque da casa, um Malbec diferenciado e elegante.

Onde comer:
Existem inúmeros restaurantes muito bons em Mendoza, mas recomendo dois deles em especiai: o 1884 de Francis Mallmann, que funciona dentro da Bodega Escorihuela; e o Azafrán, localizado no centro da cidade, um ótimo lugar para harmonizar um dos inúmeros rótulos mendocinos com a gastronomia local.

Como chegar:
Partindo de Vitória, o melhor voo para chegar a Mendoza, com apenas uma escala em Guarulhos, decola apenas nas manhãs de quinta-feira e domingo (retornando de Mendoza nas tardes dos mesmos dias). Se as datas não forem convenientes, o melhor é associar a visita com uma parada em Buenos Aires ou Santiago (nesse caso, vale a pena subir os Andes pela estrada “Los Caracoles” e atravessar a fronteira no alto da montanha).

Dicas de viagem:
Reserve as vinícolas que pretende visitar com a maior antecedência possível. A procura é grande e as vagas são bastante limitadas. É possível programar duas visitas pela manhã e mais uma à tarde (lembre-se que a siesta é comum na região e muitos lugares fecham entre 14 e 17 horas). E não se esqueça de agrupar as visitas numa mesma região, evitando assim grandes deslocamentos entre as vinícolas.

Vinhos para beber e comprar:

Lopez Montchenot 20 años Gran Reserva 1997 (versão indisponível no Brasil)

Zuccardi Q Tempranillo 2014 (R$149,90 – Grand Cru)

Nicolas Catena Zapata 2011 (R$765,89 – Mistral)

Carmelo Patti Cabernet Sauvignon 2008 (R$122,11 – VinhoBR)

El Enemigo Cabernet Franc Gualtallary Single Vineyard 2013 – R$498,69)

Penedo Borges Icono Malbec 2013 (R$249,90 – Vinhos do Mundo)

*Texto publicado originalmente na coluna “Vinhos e mais vinhos” na Revista AG do Jornal A Gazeta (05/08/18).

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5 COMENTÁRIOS

  • THEOTONIO CARVALHO DE OLIVEIRA LIMA - 8 de agosto de 2018 às 09:01

    Luiz Cola, bom dia, por gentileza me dê umas dicas de Mendonza. Estou programando em Janeiro de 2019 passar uns 4 dias. Não conheço Buenos Aires. Tenho até medo de andar por lá, mas escutei falar que Mendonza é uma cidade bonita. O que achas? Como vc falou na reportagem o bom é ir no BUS roteiro dos vinhedos. E quanto ao preço de alimentação? Sei que o Chile as comidas são caríssimas, e em Mendonza? Quanto devo levar em dinheiro na viagem? Fico grato pela sua atenção ok.

    • Luiz Cola

      Luiz Cola - 8 de agosto de 2018 às 17:36

      Olá Theotonio,
      Mendoza, por conta do câmbio, é bem mais acessível que Santiago.
      Para circular pelas vinícolas, o bus vitivinícola é uma boa, mas alugar um “remis” (tipo um táxi) também é bem acessível.
      Pode levar real mesmo ou usar o cartão de crédito. Como referência de preço, use os mesmos de São Paulo, mas deverá pagar uns 20% a menos.
      Claro que quanto mais sofisticado for o restaurante, mais cara será a conta.
      Abs,
      Luiz Cola

  • flavio - 8 de agosto de 2018 às 15:31

    Problema de Mendonza, para quem não é de São Paulo e tem vôos diretos, é o acesso: neste ano cogitei ir lá em março e perderia um dia viajando só para chegar lá, sem contar os astronômicos preços dos hotéis. No final das contas, fiz minha mala e fui para Stellenbosch na África do Sul pelo mesmo preço e não me arrependo nenhum minuto.

    • Luiz Cola

      Luiz Cola - 8 de agosto de 2018 às 17:41

      Flávio,
      Ambos os lugares valem a pena!
      Também tenho de fazer um malabarismo para ir de Vitória para Mendoza. Só tem um voo com escala em Guarulhos (Gol).
      A África do Sul ficaria nas mesmas condições para mim. Preços equivalentes, mas cada qual com sua beleza!
      Abs,
      Luiz Cola

  • Rodrigo Gomes de Sousa - 10 de agosto de 2018 às 17:11

    Excelente artigo! Mendoza é um destino imperdível para todos os apreciadores de bons vinhos e da boa mesa. Na minha última visita (junho/2018), tive o privilégio de conhecer a Bodega López (influenciado pelos seus elogiosos comentários aos vinhos Montchenot, que, de fato, são fantásticos!!), El Enemigo, La Azul, Diamandes, Lagarde e de retornar a Zuccardi. Os almoços na El Enemigo, La Azul e Lagarde são incríveis!! Fica a dica.
    Abs,
    Rodrigo

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