O voo do besouro e o paradoxo dos aromas minerais!

  • Luiz Cola
  • 05/nov/2018
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Publico hoje mais um interessante artigo da série “Curiosidades Enológicas” escrito por Euclides Penedo Borges, tratando de uma tema bastante controverso: a percepção de aromas minerais no vinho. Em tese, eles não deveriam ser percebidos, já que não podem ser “transmitidos”, mas as coisas nunca são tão simples assim.

Leiam com atenção o paralelo estabelecido no brilhante texto de Euclides sobre o “voo do besouro e o paradoxo dos aromas minerais”…

Como todos sabem, os besouros são insetos bem conhecidos compondo uma ordem distinta de coleópteros inofensivos para o homem. O que talvez não saibam é que Coleóptero – do grego koleos (estojo) e pteron (asas) – significa ‘estojo com asas’ devido à morfologia do inseto, em que a parte da frente é uma capa protetora fixa e a de trás um par de asas rígidas escondendo asinhas internas delicadas, bem protegidas. Acionadas, as asinhas propiciam o voo ao “estojo”. Quer dizer, o besouro não deveria voar e, no entanto, voa…

Algo parecido sucede com os aromas minerais do vinho. Para que uma substância origine um cheiro ela deve alcançar o bulbo olfativo em quantidade suficiente para desencadear o envio da sensação ao cérebro do provador. Substâncias não voláteis são inodoras, portanto o vinho não deveria apresentar aromas minerais. E no entanto apresentam… 

Que o digam o Alcatrão no Barolo, o Sílex no Chablis, a Pedra de Isqueiro no Sancerre, o grafite na Syrah, o Petróleo nos Rieslings alsacianos e alemães.

Tive oportunidade de detalhar alguns deles no meu livro “Degustando Vinhos” (Editora Mauad X, Rio, 2016, 250 páginas).

O Alcatrão, por exemplo, é um resíduo da destilação do carvão, de odor queimado. Surge timidamente em tintos da Nebbiolo envelhecidos em barricas de tostado médio para forte.

O Sílex é um aroma primário mineral presente em Chardonnays de solo calcário, assinatura dos bons Chablis.

Pedra de Isqueiro está presente, sob a forma química benzil-mercaptano, nos Sauvignon Blanc do Loire. 

Hidrocarbonetos, como Petróleo e derivados, propiciam aromas terciários minerais facilmente perceptíveis em Rieslings da Alsácia, do Mosel e da Nova Zelândia.

Resta como matéria controversa a origem de tais aromas no vinho, dando-se como certo que nada têm a ver com os minerais do solo.

De qualquer forma, assim como o besouro não deveria voar, minerais não deveriam ser sentidos no vinho. Mas são.

Euclides Penedo Borges

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